Com investimento de R$ 13 milhões, o complexo ocupa uma área de 10 hectares e amplia em 75% a estrutura dedicada à inovação dentro da universidade

A cena empreendedora do interior do Rio Grande do Sul ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (20) com a inauguração do Passo Fundo Valley, distrito de inovação instalado no Campus I da Universidade de Passo Fundo (UPF). Com investimento de R$ 13 milhões, sendo R$ 10 milhões financiados pela Finep e R$ 3 milhões da Fundação Universidade de Passo Fundo (FUPF), o complexo aposta em um modelo inédito no Sul do País, onde as empresas instaladas poderão converter até 75% do valor pago pela ocupação dos terrenos em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação realizados em parceria com a universidade.
O lançamento reuniu representantes do governo estadual e federal, prefeitura, universidade, empresários e integrantes do ecossistema de inovação gaúcho. Além da inauguração do distrito, o evento também marcou a expansão do UPF Parque Científico e Tecnológico.
O complexo ocupa uma área de 10 hectares e amplia em 75% a estrutura dedicada à inovação dentro da universidade. O espaço contará com 34 lotes urbanizados de 700 a 3 mil m² para instalação de empresas de base tecnológica terem suas próprias unidades de pesquisa e desenvolvimento e, além de laboratórios, coworkings, incubadora, arena de eventos e ambientes colaborativos.
Ao apresentar o projeto durante a coletiva, o gestor do UPF Parque, Ricardo Fantinelli, afirmou que o Passo Fundo Valley representa uma mudança de patamar para a região. “Passamos para um novo estágio, onde nós possuímos um parque científico tecnológico com diversas operações para o modelo de um território onde a possibilidade de empresas e do governo participarem de uma maneira ainda mais consistente deste ambiente”, afirmou Fantinelli, em coletiva durante o evento.
Segundo ele, o distrito foi estruturado em três frentes: ampliação física dos espaços, expansão da capacidade de atendimento a empresas e o modelo de ocupação dos lotes. “O mais importante é o distrito, com modelo superinovador, onde todos que ocuparem poderão trocar o valor de locação deste ambiente, não menos que 25% e não mais que 75%, por serviços que o parque, a UPF e o ecossistema possam oferecer”, explicou.
Fantinelli destacou ainda que o objetivo é descentralizar o desenvolvimento tecnológico no Brasil. “Os ecossistemas de inovação estão buscando trabalhar de maneira cada vez mais interconectada e invadir algumas outras regiões que não sejam só as capitais. O interior também pode dar exemplo”, declarou em entrevista exclusiva.
O gestor afirmou que o parque pretende ampliar em cerca de 40% o número de postos de trabalho qualificados já no próximo ciclo. Hoje, o ecossistema reúne aproximadamente 80 empregos diretos. Além disso, a incubadora Apollo recebeu recentemente 22 novos negócios. “Nossa meta é que pelo menos 10 novos CNPJs surjam a partir desses projetos”, afirmou.
Integração entre ciência e mercado
A reitora da UPF, Bernadete Maria Dalmolin, ressaltou que o projeto é resultado de uma construção de longo prazo da universidade comunitária. “Esse distrito não nasceu hoje. Ele vem sendo construído ao longo de uma trajetória. As universidades que se diferenciam fazem ciência, desenvolvem pesquisa e colocam isso a serviço da sociedade”, afirmou Bernadete na coletiva.
Ela também defendeu a aproximação entre academia, empresas e poder público como caminho para acelerar soluções e desenvolvimento regional. “A inovação é feita de pessoas. A universidade não se desenvolve sozinha, ela se desenvolve na interação. Nós precisamos acelerar aquilo que é tão importante para o crescimento do País”, declarou.
Ao explicar o modelo que transforma aluguel em pesquisa, a reitora afirmou que o objetivo não é apenas ocupar terrenos. “Não nos interessa que as empresas venham aqui só para locar um espaço. O objetivo realmente é que nós consigamos crescer juntos”, disse.
Prefeitura aposta na inovação como motor econômico
O prefeito de Passo Fundo, Pedro Almeida, afirmou que o novo distrito reforça a posição da cidade como polo regional de inovação, educação e agronegócio. “Passo Fundo vive um grande momento da sua economia e da sua história. A cidade já é considerada o segundo ecossistema de inovação do Rio Grande do Sul”, afirmou em coletiva.
Segundo o prefeito, a criação da Secretaria Municipal de Inovação, além da Lei de Desenvolvimento Econômico e do Pacto pela Inovação, ajudou a consolidar um ambiente favorável para novos investimentos. “A prefeitura também fez os seus movimentos nesse sentido. Isso ajuda a criar um ambiente favorável para quem quer investir na cidade”, disse.
Em entrevista exclusiva, Almeida afirmou que o impacto do projeto deve ser direto na atração de empresas e geração de oportunidades. “O Passo Fundo Valley ganha ainda mais força com a capacidade de atrair investimentos. Outras empresas podem instalar suas plantas nesse ambiente científico e tecnológico”, declarou.
O prefeito também relacionou o avanço da inovação com investimentos recentes na cadeia do agronegócio e energia renovável. “Depois que criamos a Lei da Inovação tivemos um dos maiores investimentos da história da cidade, que é a nova fábrica de etanol da Be8, com investimento de R$ 1,5 bilhão”, afirmou.
Representando a Finep na Região Sul, Bruno Fernandes afirmou que o projeto se tornou referência entre os parques tecnológicos financiados no estado. “O parque aqui foi construído em um nível superior. Vocês têm uma estrutura de primeira que vai ajudar a dinamizar as vocações regionais”, afirmou durante a coletiva.
Fernandes destacou ainda a importância da interiorização da inovação. “O Rio Grande do Sul foi o campeão da chamada da Finep para parques tecnológicos. Isso mostra a regionalização da inovação, o que é muito importante”, disse.
Empresas já enxergam impacto na retenção de talentos
Uma das primeiras empresas instaladas no UPF Parque foi a Stara, indústria do setor agrícola que mantém há seis anos uma estrutura de pesquisa e desenvolvimento dentro do ecossistema. O diretor de pesquisa e desenvolvimento da empresa, Cristiano Paim, afirmou que a iniciativa ajudou a reter mão de obra qualificada na região.
“A grande mudança é que os alunos passaram a enxergar futuro em tecnologia aqui no interior. Antes muitos saíam para grandes centros porque não viam oportunidade na região”, afirmou em entrevista exclusiva. Segundo ele, atualmente a empresa mantém 28 estudantes atuando em projetos de inovação dentro da universidade.
“Hoje, um terço do nosso centro de pesquisa e desenvolvimento saiu dessa sala. São alunos que vieram formando carreira e hoje estão dentro da indústria criando produtos e tecnologias”, declarou.
Paim também defendeu uma relação mais colaborativa entre empresas e universidades “As empresas não devem se servir das universidades. Elas precisam ajudar a potencializar a universidade para atrair mais alunos e mais talentos”, disse.
Fonte: Jornal do Comércio

