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Apicultura gaúcha cresce após superação de desafios climáticos

Cadeia apícola apresenta recuperação após enchentes

Foto: Apiários Paulineli/Divulgação

Até poucos séculos atrás, o Brasil era povoado exclusivamente por abelhas indígenas — as meliponinas ou abelhas sem ferrão. De um veleiro vindo da Europa, no entanto, desembarcou uma nova espécie, que deu início à apicultura no País: as abelhas europeias do gênero Apis, com ferrão, trazidas em três colmeias pelo alemão Frederico Augusto Hannemann em meados do século XIX.

“Hannemann começou a trabalhar com elas em Rio Pardo, por isso a gente considera Rio Pardo como o berço da apicultura gaúcha”, conta Aroni Sattler. O professor aposentado da Ufrgs é uma das maiores autoridades em apicultura do País. Atualmente, coordena a Câmara Setorial da Apicultura e Meliponicultura da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi).

“Mais tarde veio outra etapa importante, que foi a africanização da nossa apicultura. Isso foi praticamente um novo capítulo”, conta. O que ocorreu foi a introdução de uma nova subespécie — abelhas africanas — com o intuito de potencializar a produção de mel. Porém, enxames dessas abelhas escaparam acidentalmente, cruzaram com as abelhas europeias já existentes no País e originaram as chamadas abelhas africanizadas, que se espalharam pelo continente.

“Num primeiro momento houve uma queda muito grande da atividade, porque a abelha africanizada era muito defensiva. Para quem não entende do assunto, dizem que ela é agressiva, mas na verdade ela é defensiva. Se deixar ela em paz, ela não incomoda ninguém”, explica Sattler.

Depois de um decréscimo acentuado da atividade por alguns anos, descobriu-se que com novas técnicas de manejo e segurança era possível trabalhar com a abelha africanizada. Hoje, conforme Sattler, a apicultura brasileira é majoritariamente baseada nessas abelhas.

Com o passar dos anos, a apicultura gaúcha também evoluiu. As colmeias se padronizaram e o que era antes uma cultura secundária dentro das propriedades passou a ganhar protagonismo.

“Nas últimas décadas, talvez nos últimos 20 ou 30 anos, parte da apicultura gaúcha passou a ser baseada também em grandes produtores. Hoje já existem apicultores com mais de mil colmeias. Conheço grupos familiares, irmãos trabalhando juntos, com até sete mil colmeias. Aí já é uma atividade empresarial, que exige investimento, conhecimento, formação e tecnologia”, Sattler reforça.

Agricultura familiar e serviços de polinização fortalecem a produção de mel
A diversidade produtiva da Metade Norte do Rio Grande do Sul tem impulsionado diferentes nichos da apicultura e ampliado o potencial econômico do setor em regiões com características bastante distintas entre si. Dos Campos de Cima da Serra ao Alto Uruguai, passando pelo Planalto e pelas Missões, a variedade de culturas agrícolas e floradas favorece a produção de méis especiais, a prestação de serviços de polinização e o fortalecimento das colmeias.

“A região dos Campos de Cima da Serra, o Planalto, as Missões e os vales do Rio Uruguai possuem realidades diferentes e produtos diferentes”, destaca o extensionista da Emater/RS-Ascar Aroni Sattler. Entre os destaques está a canola, que além de matéria-prima para biodiesel, vem se consolidando como alternativa estratégica para os apicultores no período pós-inverno, contribuindo para a recuperação e o fortalecimento das colmeias.

“Principalmente porque a gente tem uma composição de ambiente interessante, onde tem mata nativa, áreas de exploração agrícola, e uma diversificação muito forte dos sistemas, considerando que a gente tem mata atlântica, a questão da produção da erva-mate, do próprio eucalipto, das frutíferas, a questão da canola, da soja, além das culturas de inverno. Tudo isso contribui, e muito, para uma boa oferta de néctar e pólen durante a maior parte do ano”, esclarece.

Além disso, a região apresenta um perfil baseado, principalmente, na agricultura familiar, que exige pouco espaço e pode gerar uma boa renda complementar para as famílias.

“Ela conversa bem com outras matrizes produtivas como, por exemplo, a produção leiteira ou mesmo das lavouras e também essa questão da participação de jovens e mulheres dentro da atividade. A apicultura tradicionalmente acaba ficando na mão das pessoas mais velhas e o jovem aprende desde cedo o gosto pela atividade, o que oportuniza essa questão da sucessão. E a mulher tem um papel importante na manipulação desse produto pós-colheita. Muitas também vão até os apiários, realizam manejo, fazem colheita e têm todo esse processamento posterior importante, que acaba tendo a presença da mulher como um fator muito forte nessa atividade”, ressalta.

Segundo a extensionista, mais de 70% da atividade está baseada em pequenas propriedades familiares. “Isso é importante porque ela pode ser realizada em pequenas propriedades. Aproveita áreas de menor uso, como as áreas de mata, as bordas de lavoura, que são áreas muitas vezes subutilizadas”, atenta.

Segundo o vice-presidente da Federação Apícola do Rio Grande do Sul (Fargs), Patric Luderitz, a polinização é outra questão relevante para a apicultura no norte do Estado. “É um serviço que provavelmente vai ser trabalhado com mais intensidade nos próximos anos, porque hoje já existem estudos que demonstram que a canola chega a aumentar a produtividade em 30% com a presença de abelhas polinizadoras. E a soja pode ter um aumento de 10% a 18%, mesmo não sendo uma cultura que necessite de polinização. Tendo abelha junto, ela aumenta a produtividade”, menciona.

Os estudos citados por Luderitz foram divulgados pela Embrapa Soja e Embrapa Trigo e reforçam o potencial econômico das abelhas para além da produção de mel e derivados, mas como propulsor produtivo da cadeia agrícola. “Sem falar na polinização das macieiras. Essa sim, se não tiver polinização de abelha, não produz”, complementa.

A necessidade de polinização de determinadas culturas abre, cada vez mais, espaço para oportunidades na apicultura migratória. “Com isso, mudou também o perfil do apicultor gaúcho. Muitos passaram a trabalhar de forma profissionalizada, em grupos, fazendo migração de centenas de colmeias tanto para produção de mel quanto para serviços de polinização”, reitera Aroni Sattler. A partir dessa necessidade, serviços como aluguel ou mesmo a compra de colmeias são cada vez mais comuns em diferentes culturas agrícolas.

“Eu tenho uma relação muito próxima com o pessoal da Cotrijal. Tenho duas propriedades em que o produtor chegou para mim e disse: ‘Eu preciso de abelhas aqui. Produzo soja e canola no inverno. O que tu precisa para colocar as colmeias aqui?'”, relata o apicultor Alisson Paulineli, de Colorado. “Aí eu levo as colmeias, ele organiza o espaço e ainda compra parte da produção. Mas o interesse principal dele é a polinização”.

Fonte: Gabriel Eduardo Bortulini / Especial Jornal do Comércio