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Políticos “profissionais” dominam a Assembleia Legislativa do RS há vinte anos 

Estudo feito a partir de ferramenta que faz raio-X da política no legislativo mostra que outsiders não prosperaram no RS

Por Pedro Pereira / Matinal Jornalismo

Sessão solene de posse dos eleitos em 2022, quando mais da metade dos eleitos para a Casa se identificavam como políticos profissionais | Foto: Reprodução / ALRS

Em 2006, pouco mais da metade dos deputados eleitos para a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (AL-RS) se identificavam como políticos profissionais. Cinco mandatos depois, em que a política brasileira pendeu à direita, o cenário no estado não mudou.

O discurso antipolítica promovido pelo bolsonarismo promoveu uma inversão neste cenário apenas na eleição de 2018, quando 30,9% (17 dos 55 eleitos) eram pessoas cuja carreira é construída na política institucional, seja em cargos eletivos ou funções partidárias.

“Os dados de 2018 revelam justamente o cenário político do momento. A gente viveu uma fase da política no Brasil em que houve uma criminalização justamente desse político profissional”, analisa o professor Nilton Sainz, do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A transformação, no entanto, não se seguiu. Em 2022, os políticos profissionais recuperaram exatamente o mesmo patamar de 2010 e 2014 — 28 deputados, cerca de 50,9% da Casa.

Para o pesquisador, houve um recuo por parte desses indivíduos externos à política partidária após a presidência de Jair Bolsonaro. “Muitos dos que foram eleitos em 2018 largaram logo em seguida ou se elegeram para outro cargo. Em 2022, já não disputaram as eleições, não gostaram, acharam ruim a dinâmica da política, da vida política, e largaram os cargos mesmo”, afirma.

Os dados que traçam um cenário do legislativo gaúcho foram extraídos com exclusividade para a Matinal por meio do Portal da Classe Política, recém-lançado por pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Representação e Legitimidade Democrática (INCT-ReDem) da UFPR. A ferramenta consolida informações de 2,8 milhões de candidaturas registradas entre 1998 e 2024, oferecendo um raio-X completo da política brasileira. A iniciativa foi divulgada pela Agência Bori, parceira do INCT-ReDem.

A sequência de mandatos de políticos de carreira pode ser explicada pela experiência acumulada em campanhas. “Por ter experiência, por conhecer todos os atalhos, digamos, do campo, o político profissional sabe se mover estrategicamente nas eleições. Ele tem esse conhecimento para conseguir financiamento, fazer uma boa campanha, ter as redes certas de acesso”, aponta o professor.

O cenário é parte de uma tendência própria das democracias, em que a vida política ganha autonomia a partir do século 20. “A partir de um dado momento da história, teve uma transformação: saiu a figura do profissional liberal, do empresário e entra a do especialista na política, que só acumula cargos, que passa a viver exclusivamente do salário da política”, explica Sainz.

Em 2022, 28 deputados e deputadas estaduais eleitos declararam a carreira política como profissão:

Adolfo Brito (PP) – Deputado

Aloísio Classmann (União Brasil /atual PSD) – Deputado

Valdeci Oliveira (PT) – Deputado

Bruna Rodrigues (PCdoB / atual PSB) – Vereadora

Kaká D’Ávila (PSDB / atual Podemos) – Vereador

Dirceu Franciscon (União Brasil) – Deputado

Elizandro Sabino (PTB / atual Republicanos) – Deputado

Elton Weber (PSB / atual PSD) – Deputado

Ernani Polo (PP / atual PSD) – Deputado

Felipe Camozzato (Novo) – Vereador

Frederico Antunes (PP / atual PSD) – Deputado

Paparico Bacchi (PL) – Deputado

Jeferson Fernandes (PT) – Deputado

Zé Nunes (PT) – Deputado

Gaúcho da Geral (PSD / atual PP) – Deputado

Juvir Costella (MDB) – Deputado

Laura Sito (PT) – Vereadora

Leonel Radde (PT) – Vereador

Luciana Genro (PSOL) – Deputada

Luiz Fernando Mainardi (PT) – Deputado

Matheus Gomes (PSOL) – Vereador

Kelly Moraes (PL) – Deputada

Neri, o Carteiro (PSDB / atual PSD) – Deputado

Rodrigo Lorenzoni (PL / atual PP) – Deputado

Sérgio Peres (Republicanos) – Deputado

Silvana Covatti (PP) – Deputada

Sofia Cavedon (PT) – Deputada

Dr. Thiago Duarte (União Brasil / atual PDT) – Deputado

Como utilizar o Portal da Classe Política
A partir do portal, é possível descobrir o patrimônio declarado de um deputado, verificar em quais municípios um senador recebeu mais votos ou comparar a evolução da participação feminina nas eleições ao longo das últimas duas décadas.

É possível também consultar o perfil individual de cada candidato ao digitar o nome de qualquer político, acessando seu histórico completo – todas as eleições disputadas desde 1998, evolução patrimonial, cargos conquistados e um mapa interativo mostrando onde recebeu mais votos. O sistema já identificou 1,8 milhão de pessoas únicas que disputaram eleições no período.

O portal apresenta 12 métricas usadas por cientistas políticos, disponíveis em gráficos simples. Por exemplo, o “Número Efetivo de Partidos” mostra se o Congresso Nacional está mais ou menos fragmentado ao longo do tempo.

O portal também permite comparar candidaturas por gênero, raça, escolaridade, ocupação ou partido em qualquer período. Por exemplo: mesmo com a lei de cotas de 30% para candidaturas femininas instituída desde 2009, as mulheres receberam apenas 12% do total de votos para vereador em 2024.

Fonte: Matinal Jornalismo