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João Saldanha: o comunista que virou técnico da seleção tricampeã na ditadura

Biógrafo de Saldanha conta que ele foi de cronista esportivo a técnico de futebol, e revolucionou a seleção

João Saldanha | Crédito: Arquivo nacional

No auge da repressão da ditadura civil-militar, um comunista se tornou técnico da Seleção Brasileira de Futebol. João Saldanha comandou a equipe entre fevereiro de 1969 e março de 1970, período em que montou a seleção que seria tricampeã na Copa de 1970.

Muito vinculado à militância comunista desde cedo, Saldanha, em alguma medida, se utilizou do esporte como forma de se expressar no mundo paralelamente aos compromissos políticos. “Ele levava a atividade política muito a sério. O futebol era a paixão dele”, relata o biógrafo de João Saldanha, André Iki Siqueira, em participação no BdF Entrevista desta terça-feira (16).

Natural de Alegrete (RS), Saldanha chega ao Rio de Janeiro nos anos 1930 e, na praia de Copacabana, conhece o Neném Prancha, que tinha um conhecido time de praia, e começa a jogar futebol. “Depois vai para o Botafogo, se apaixona pelo Botafogo e segue a vida política dele, paralelo ao futebol. Em 1947, numa briga aqui na sede da UNE [União Nacional dos Estudantes], a polícia entrou, a porrada cantou e o João acabou dando uma cadeirada num policial e tomou um tiro a queima-roupa no pulmão, o que debilitou o João pro resto da vida, inclusive. Então, sempre foi paralelo futebol e política. Lá na frente, quando o João, em 1957, vira treinador do Botafogo e é brilhante campeão carioca naquele time que tinha Garrincha, Newton Santos, Quarentinha. Era um timaço que ganhou do Fluminense. Na final, o João foi carregado nos ombros do Maracanã; depois ele virou treinador da seleção brasileira em 1969. Àquela altura, ele sabia muito bem a potência que ele tinha. Ele alcançou um nível de audiência tão grande, de popularidade tão grande, que ele tinha um canhão na mão, que era exatamente a área dele de comentarista esportivo. Ele usava muito isso. Em vários momentos mais duros de repressão, ele dizia para a Thereza Bulhões [esposa], quando perguntado se ele tinha medo de morrer na Copa de 70, ele dizia: ‘Olha, eu sou um defunto muito caro’”, relata Siqueira.

O biógrafo conta que, durante sua intensa atividade como jornalista esportivo, fez muitas viagens pelo mundo. Nessas ocasiões, aproveitava sua influência e presença em determinados países para conseguir articulações em defesa da esquerda. No Chile, na época do Allende, tinham vários brasileiros exilados. Ele chegava e fazia, inclusive, reunião com vários jornalistas correspondentes estrangeiros, chegava a fazer caixinha de dinheiro para ajudar os companheiros, camaradas que estavam lá exilados. Então ele aproveitava: sempre que podia ele fazia uma articulação ou outra. Quando ia para a França, se o comitê central do partido tivesse alguma orientação, alguém que estivesse fora do Brasil, ou articulação com a esquerda internacional, ele fazia isso, sem qualquer receio”, afirma.

André Iki Siqueira conta como João Saldanha foi da crônica esportiva ao técnico da seleção brasileira, depois de o Brasil amargar uma derrota em 1966. “Na preparação para a Copa de 1970, a seleção vivia uma crise gigantesca. Ninguém sabia qual era o time. Chegaram a convocar até 40 jogadores numa convocação, os estádios vaiavam, foram esvaziando e tal. E o João era o maior crítico, todo dia ele batia na antiga CBD. Ele batia pesadamente. Paralelo a isso, João Havelange queria ser presidente da Fifa, e aí tinha que usar de qualquer jeito as eliminatórias do sucesso do Brasil em 70. Então, dizem que o Havelange convida o João para ser treinador para calar o João, acreditando que ele ia quebrar a cara e pronto. O grande crítico, o maior crítico, estaria aniquilado. Perderia, seria uma vergonha, perderia toda a força do combate que ele fazia diariamente. Tudo bem, só que o João, no segundo ou terceiro convite, ele aceitou, por incrível que pareça, porque a gente estava na ditadura, e aceitou. Só que ele revolucionou a seleção. E, por incrível que pareça, num período hoje em dia tão impensável, ele, sem reunir a comissão técnica, vai para uma primeira coletiva e puxa do bolso um papel. Essas aqui são as minhas 22 feras. Os titulares são esses, os reservas são esses. Isso é inimaginável fazer hoje em dia”, diverte-se.

Confira a entrevista completa no link abaixo:

Fonte: Brasil de Fato