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ESPECIAL: Movimento de resistência à ditadura militar ganha obra detalhada, lançada em Três Passos

Escrito pelo historiador Leomar Rippel, livro “Operação Três Passos – Primeiro movimento armado contra a ditadura militar” foi apresentado à comunidade

Leomar Rippel, autor de obra que revisita fato histórico da região (Foto: Vinicius Araujo / Tertúlia Web)

Uma obra com riqueza de detalhes que retrata um dos episódios mais importantes da história brasileira, mas ainda pouco conhecido pela sociedade, foi lançada oficialmente no Rio Grande do Sul esta semana. O livro “Operação Três Passos – Primeiro movimento armado contra a ditadura miliar”, do historiador Leomar Rippel, e publicado pela editora Insular, foi apresentado em um evento especial na noite de terça-feira (14), no miniauditório da Unijuí, em Três Passos, cidade da região Noroeste do estado, onde este levante foi protagonizado.

Estudantes, professores, representantes de entidades parceiras e pessoas da comunidade prestigiaram o momento, que contou com palestra do autor, sessão de autógrafos e exposição de fotos relativas ao Movimento da Legalidade.

Rippel teve a oportunidade de dimensionar à comunidade local, um dos fatos de maior relevância no contexto de resistência ao golpe militar instaurado no Brasil, em 1º de abril de 1964. Pouco antes de completar um ano da deposição do então presidente João Goulart, um grupo de militares e civis se organizaram e se mobilizaram, a partir da região de Três Passos, para se insurgir contra o governo ditatorial e tentar um movimento que culminasse com a tomada de quartéis a partir do Sul do Brasil.

Liderados pelo coronel do Exército, Jefferson Cardin de Alencar Osório e pelos sargentos Alberi Vieira dos Santos e Firmo Chaves, um grupo de pelo menos 21 homens, entre trabalhadores urbanos e rurais, realizaram a tomada da cidade de Três Passos, em 26 de março de 1965, invadindo o quartel da Brigada Militar e o presídio, lendo um manifesto na rádio local, em defesa da soberania nacional e do restabelecimento da democracia, além de cortarem fios telegráficos e telefônicos da cidade.

Não obtendo a adesão de outros quartéis e destacamentos militares, o grupo decidiu rumar para a região centro-oeste do país, sendo perseguidos e capturados na altura do município de Capitão Leônidas Marques, no Paraná, no dia seguinte, após uma ampla mobilização de forças militares nacionais e estaduais.

O único combate travado entre a coluna e as tropas do Exército deslocadas para conter o levante, ocorrido na cidade paranaense na manhã do dia 27 de março de 1965, resultou na morte do sargento do Exército, Carlos Argemiro de Camargo (a autoria dos disparos até hoje continua incerta).

De acordo com Carla Luciana Silva, professora associada da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, responsável por prefaciar o livro, “os grupos de luta urbana, nos grandes centros, acabaram recebendo o privilégio dos estudos sobre a Ditadura. Embora pouco conhecidas, histórias como a da Operação Três Passos guardam informações e inquietações muito importantes para compreendermos como mesmo em situações em que tudo pesava contra, forças se uniram e se levantaram, ainda que sem ter um objetivo claramente instituído”.

A pesquisa conduzida por Leomar Rippel é respaldada na análise do processo nº 335/1965, da Justiça Militar Federal, com mais de 6.500 páginas, que julgou os participantes da Operação Três Passos, ao qual o historiador teve acesso. Um farto material documental e testemunhal também foi buscado pelo autor, para embasar seu trabalho.

Rippel, natural de Pérola D’Oeste, no Paraná (com laços familiares em Crissiumal e Três Passos, no Rio Grande do Sul), é doutor em História pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná e atualmente trabalha como professor adjunto do Departamento Acadêmico de História, na Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

“Que essa obra consiga possibilitar ao povo três-passense uma reflexão mais profunda sobre esse episódio, e não apenas sobre esse episódio, mas também sobre o seu passado. Como dizia Marc Bloch, ‘a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado’. Não somos justiceiros históricos, como diz o Eric Hobsbawm, mas trata-se de uma obra que quer contribuir para o aprofundamento do conhecimento também no presente”, afirmou Leomar Rippel.

Entidades parceiras possibilitaram a realização do lançamento no RS
Uma série de entidades apoiadoras do evento foram fundamentais para a realização do evento de lançamento do livro, na cidade de Três Passos: Unijuí, OAB Subseção Três Passos, Movimento Pró-Arte, 217º Núcleo do CPERS/Sindicato, Casa da Cidadania Erton Lampert (Condomínio Sindical) e Associação dos Escritores Três-passenses.

O coordenador do campus Três Passos da Unijuí, professor doutor André de Castro, afirma que a Unijuí, enquanto instituição de ensino superior reconhecida por sua formação crítica e inserção comunitária, “acredita que obras e eventos dessa natureza contribuem para o registro da nossa história e para o desenvolvimento de uma educação cidadã e democrática com foco na defesa dos direitos humanos”.

Em nome dos organizadores do evento, o jornalista Clovis Baraldi Machado, que integra o Movimento Pró-Arte e o conselho municipal de políticas culturais, ressaltou que o resgate e a valorização da memória histórica de Três Passos e da região, é um tema sempre urgente e necessário. “Além da Operação Três Passos, esta região também foi protagonista de outros movimentos de resistência à ditadura militar, como a tentativa de montagem de uma base da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), em 1971, com prisões arbitrárias e torturas, a partir de uma decisão que considerava Três Passos como área de segurança nacional, sofrendo uma série de restrições e violações ao longo de vários anos. O apagamento de boa parte da história de resistência foi proposital, em uma omissão histórica que precisa ser corrigida com o rigor acadêmico e de pesquisas”, afirma.

Um dos integrantes da Operação Três Passos, Abraão Dorneles, de 86 anos, que reside no município de Bom Progresso, esteve prestigiando o evento, juntamente com familiares. Sua família foi decisiva para que a mobilização de trabalhadores fosse possível em nível local e o levante ocorresse, em 1965. E seu testemunho histórico também colaborou na pesquisa conduzida por Rippel para a montagem do livro.

A obra lançada em Três Passos pode ser adquirida diretamente com o autor, Leomar Rippel, através de contato pelo WhatsApp: (69) 98118-0314, ou com Clovis Baraldi Machado, pelo contato de WhatsApp: 55 98453-2000.

Fonte: Vinicius Bindé Arbo de Araujo / Jornalismo Tertúlia Web