A autora Heloísa Pires Lima foi anunciada, na manhã desta terça-feira (4), como a patrona da 72ª Feira do Livro de Porto Alegre. Ela é apenas a décima mulher escolhida para representar o evento, e a primeira mulher negra dos mais de setenta anos de Feira. Em 2020, Jeferson Tenório se tornou a primeira pessoa negra a ocupar o posto.
Heloísa é natural de Porto Alegre, mas se mudou aos nove anos para São Paulo. Segundo ela, essa mudança foi às lágrimas. “Achei que nunca mais ia ver as Três Marias”, brinca a autora no evento de anúncio da sua escolha.
Durante a cerimônia de apresentação de seu nome como patrona, Heloísa destacou que ainda mantém raízes na cidade e no Rio Grande do Sul, chamando o Estado de “minha terra”.
Ela começou na literatura em 1995, com foco nas crianças e nos jovens. Doutora em Antropologia Social pela USP e educadora, trabalha com questões de afro-brasilidade e cultura negra, com foco na “representatividade de histórias negras que não estão nos acervos”, como definiu, e em abrir janelas para outras realidades aos pequenos. “Antes de ser escritora, eu sou educadora”, disse.
Aos 70 anos, a autora publicou mais de 30 obras, a maioria dentro do gênero infantojuvenil, que é o enfoque da sua bibliografia para esta Feira do Livro. A sua primeira obra é a de maior destaque. O livro “História da Preta”, de 1998, foi vencedor dos prêmios José Cabassa e Adolfo Aizen da União Brasileira dos Escritores. Além disso, foi indicada ao Prêmio Jabuti em 2011.
Durante a cerimônia, ela disse que será uma patrona que caminhará pela Feira e tentará estar presente em todos os dias no evento, valorizando também os livreiros independentes. “Eu trago um sol dentro de mim”, comenta Heloísa. “A alegria não tem tamanho. E a responsabilidade também”.
“Para mim, é uma honra maior que o Prêmio Nobel. Aceito esse compromisso com o objetivo de reafirmar a literatura infantojuvenil como um espaço de afeto entre gerações, mas de compromissos, ao representar nossos mundos”, declarou Heloísa Pires na sua primeira manifestação como patrona.
Seis patronas nos últimos onze anos

O evento desta manhã marcou a despedida de Martha Medeiros como patrona. O apontamento de Heloísa Pires, além de ser a primeira mulher negra no cargo, ainda oficializa uma “virada” nas feiras: desde 2016, seis mulheres foram nomeadas patronas contra cinco indicações masculinas. O que era uma raridade até a metade da década passada tornou-se constante, ao menos até agora.
Essa nomeação também marca apenas a segunda vez em que mulheres foram escolhidas patronas de forma consecutiva. O período entre 2016 e 2019 teve quatro autoras escolhidas para a função de maior honraria do evento. “É um momento de história”, define Roseni Siqueira Kohlmann, presidente Câmara Rio-Grandense do Livro.
Ela entende que o momento é uma “mudança de perspectiva”. Entretanto, reforça que os obstáculos para as mulheres seguem de pé e elas seguem sem seu devido espaço, apesar de se falar muito em uma suposta igualdade entre homens e mulheres com conquistas femininas recentes. “Quem é mulher sabe que não é bem assim. Então, acho que é muito importante esses momentos”, complementa.
Ao Sul21, Roseni conta que a única coisa que pediu para a equipe que iria mapear potenciais nomes ao cargo de destaque da Feira fosse uma mulher. Foi quando chegaram no nome de Heloísa. A bibliografia da autora chamou a atenção da presidente.
“Eu sempre falo muito do incentivo à leitura nas séries primárias, da importância do incentivo na infância e na juventude. Eu comecei a procurar autores gaúchos nesse estilo e nós chegamos à Heloísa”, relata Roseni.
A questão de ser uma mulher negra, segundo ela, veio de forma natural, não foi um objetivo do princípio da pesquisa. Mas reafirma seu compromisso por buscar uma leitura para todos e não uma leitura para alguns. “É isso que a Feira representa para nós: a diversidade”, destaca Roseni. “E quando a gente fala de literatura, que é uma coisa tão diversa, por que não também a literatura negra?”, indaga a presidente Câmara Rio-Grandense do Livro.
A Feira
A 72ª Feira do Livro ocorrerá de 30 de outubro a 15 de novembro de 2026, na Praça da Alfândega, reunindo livreiros, editoras, escritores e milhares de leitores. Reconhecida como a maior feira do livro a céu aberto da América Latina, terá em sua programação lançamentos de obras, debates, sessões de autógrafos, atividades culturais e programação infantil.
A organização da Feira também revelou os primeiros nomes da programação, reunindo autores e artistas de destaque no Brasil no exterior. São 16 convidados estrangeiros, sendo 15 deles novos ao evento, e 36 autores de fora do Rio Grande do Sul.
Entre as presenças confirmadas está Eliane Potiguara, escritora, professora e ativista indígena brasileira, a primeira mulher indígena a publicar um livro no país e indicada ao projeto internacional Mil Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz. Outro destaque fica por conta de Bianca Santana, escritora, jornalista e ativista do movimento feminista de mulheres negras.
No âmbito internacional, estão a artista visual afegã Moshtari Hilal, o artista português Afonso Cruz e a romancista francesa Neige Sinno. Ainda na agenda, foram oficializados a jornalista Milly Lacombe, o escritor Marcelino Freire e a escritora, dramaturga e ativista Cidinha da Silva, que participarão de encontros tanto na área adulta, com bate-papo e autógrafos, como com estudantes do Ensino Médio.
“Nós vamos ter muitas mudanças e novidades”, afirma Roseni Kohlmann. “Falta pouco!”.

