Especialista defende importância de Comitês de Bacia Hidrográfica e da rede pública de educação para evitar novas tragédias

A pressão pela adaptação climática ganhou força no Rio Grande do Sul desde 2024, quando as cheias deixaram vítimas e territórios inteiros devastados. No entanto, para o professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) João Paulo Peres Bezerra, o plano de adaptação climática para os municípios gaúchos deve olhar também para a estiagem. Ele alerta que o problema da seca afeta pequenos produtores e, assim como as cheias, têm causado grandes prejuízos financeiros e sociais.
O pesquisador, que atua no Campus Erechim, salienta que os municípios têm um papel estratégico na prevenção dos desastres. Entretanto, precisam retirar os planos de adaptação do papel, com investimentos em monitoramento preciso, levantamento histórico e fortalecimento das equipes e dos instrumentos da Defesa Civil. Ele também defende o papel dos Comitês de Bacia Hidrográfica na construção de ações e políticas de prevenção.
Nessa entrevista ao Sul21, Bezerra também defende o papel da educação pública, nas escolas e nas universidades, para apoiar as comunidades no processo de conscientização sobre temas relacionados ao meio ambiente. Ele sustenta que essa é a chave para aumentar a participação das comunidades nos processos de eventos climáticos que devem ser cada vez mais comuns no dia a dia.
Sul21 – O que é a adaptação climática e como ela pode prevenir tragédias?
João Paulo Peres Bezerra – O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) foi criado ainda na década de 1990. Já a ideia de adaptação, é bem mais antiga, remonta à ecologia, à geoecologia das paisagens. Mas esse termo surge como um conceito dentro das ciências da Terra, como um processo de ajuste ao clima atual ou aquilo que é esperado para o futuro e seus efeitos, tendo como principal foco moderar e reduzir danos, mas também aproveitar possíveis oportunidades benéficas.
Ao longo dos últimos 20 anos, esse conceito foi mudando e sendo refinado pelas comunidades científicas. Hoje em dia, no Brasil, a ideia central está muito associada ao Plano Nacional de Concessões Climáticas, dentro de uma perspectiva de que seria, então, um conjunto de medidas para reduzir a vulnerabilidade e a exposição ao risco frente a esses eventos climáticos extremos. Essa definição contempla de maneira significativa tudo aquilo que precisamos fazer, tendo sempre como foco essa redução da exposição ao risco na questão ambiental, social e econômica.
A flexibilização da legislação ambiental não contribui para a adaptação climática. E temos um desafio muito grande, porque a adaptação climática custa caro. Não é algo trivial. Então precisamos manter uma economia forte, mas sem diminuir as nossas chances de adaptação.
Nos processos de licenciamento ambiental, a comunidade precisa ser educada para participar. E não apenas para ir a uma audiência pública. No Brasil, é o Ministério Público, muitas vezes, que garante essa participação. Mas temos um conjunto de atividades que têm alto potencial poluidor e de degradação ambiental. Então, temos que trabalhar a partir do que a legislação atual obriga, proíbe ou permite.
Sul21 – Falando agora de prevenção, qual o trabalho que os municípios ainda precisam fazer? Investigar o histórico, as características locais e construir mecanismos de proteção melhores?
Bezerra – Os municípios, obviamente, já têm um histórico de evento climático extremo, e estão trabalhando na construção de planos. Vamos precisar acompanhar a qualidade desses planos para que sejam planos muito bem feitos. Mas tem alguns temas e passos que são importantes, como o foco em uma análise de risco.
E essa análise de risco precisa contemplar temas também bastante complexos, como a questão de gênero. Sabemos que, muitas vezes, as mulheres são lideranças das famílias e elas estão mais expostas ao risco. Então, essa questão de gênero também é muito importante na adaptação climática, para identificar as áreas geográficas que estão mais expostas.
Vamos pensar em movimento gravitacional de massa, inundação, enchente. Mas, aqui no Sul, o maior prejuízo historicamente, se olhar o Atlas do desastre com a série histórica de 30 anos e os registros da Defesa Civil, é com seca e estiagem. E os pequenos produtores rurais sempre têm de lidar com isso. É importante identificarmos esse desafio, e pensarmos nos ecossistemas e nos grupos sociais mais vulneráveis.
Então, não podemos pensar a análise de risco apenas como aquela técnica fria da geotecnologia ou apenas como uma questão de produção de mapas a partir de interpolação de dados em geoprocessamento. Precisamos, também, focar nas pessoas e especialmente nos grupos vulneráveis.
Isso é uma mensagem importante para que as próprias comunidades possam cobrar daqueles que estão fazendo o plano. E, claro, a partir do histórico e do ponto de partida. E, obviamente, considerar essas características locais do município e da bacia hidrográfica em que o município se insere.
A política nacional remonta a 2009. O Rio Grande do Sul já trabalha a partir do AdaptaCidades, do governo federal, e do ProClima2050, que é uma iniciativa estadual. Obviamente, vai haver pontos positivos e pontos que precisam melhorar. Cada município precisa se enxergar dentro desses programas. E uma iniciativa também que vale ser mencionada é a Redus, que é uma grande rede de gestores e gestoras, lideranças e de movimentos sociais organizados e pesquisadores, um pessoal que está envolvido com a adaptação e está construindo planos.
Sul21 – De que maneira os gestores podem se apropriar da adaptação climática para criar políticas que evitem tragédias? Em geral, no momento dos desastres, eles mencionam que não foi possível prever.
Bezerra – Podemos prever e criar modelos através do conhecimento das ciências do clima, meteorologia, climatologia, climatologia geográfica e do monitoramento das águas pluviais e fluviais. Podemos melhorar a prevenção e a redução de danos e de risco. Afastar a possibilidade de perdas de vida. Para isso, precisamos aumentar, com urgência, a rede de monitoramento.
Ou seja, precisamos de um número muito maior de estações meteorológicas distribuídas pelo território brasileiro e fundamentalmente naquelas áreas em que sabemos que já houve evento climático extremo, que consta na série histórica daquela área ou município.
Precisamos também monitorar os nossos rios, principalmente a questão da evasão dos rios, para ter a possibilidade de fazer um aumento no detalhamento dessas previsões. Porque quando ativa um aplicativo qualquer de previsão climática no teu celular, aquela previsão é uma previsão de geoestatística. Ou seja, estamos extrapolando alguns dados que temos de alguns pontos para territórios maiores.
Hoje alguns trabalham com dados da atmosfera e através de modelos numéricos para aferir aquilo que pode acontecer amanhã ou daqui dois dias. Isso já é muito bom. Precisamos acreditar também nessas previsões e sensibilizar a comunidade para acatar os avisos. Mas, para aumentar a nossa rede de coleta de dados e de monitoramento, precisamos de investimento significativo do poder público estadual.
Sul21 – E a comunidade, como pode contribuir?
Bezerra – Podemos melhorar essa dinâmica de antecipação aos eventos para realmente sensibilizar as comunidades. Em alguns locais, que já são conhecidos como de risco, elas precisam acatar os avisos. Claro que é muito difícil para uma família deixar a sua casa, corre o risco de você perder tudo por conta de saques, por exemplo. Então, essa organização que envolve poder público municipal, Defesa Civil e lideranças comunitárias é algo que pode ajudar muito.
A Defesa Civil Municipal vem sendo fortalecida nos últimos anos, depois de 2024. Mas ainda carece de bastante investimento público. Nos últimos 30 anos da gestão ambiental, principalmente na esfera pública, temos um conjunto de planos que foram realizados e contratados pelos municípios e que muitas vezes esses planos simplesmente somem. Você precisa construir um plano para acessar uma área específica, contrata uma empresa ou uma assessoria e consultoria, que, muitas vezes, não é da região.
No caso da adaptação, isso não pode acontecer. Porque são prejuízos milionários da seca e da estiagem no Rio Grande do Sul. São camadas de prejuízos que têm a sua origem nessa questão dos eventos climáticos extremos. Então, o plano municipal de adaptação não pode, de forma alguma, ser colocado como mais um documento que o município tem.
Tenho defendido a ideia de que a construção desses planos precisa acontecer a partir do próprio conhecimento regional, quando possível. Então, precisamos utilizar as universidades públicas, federais e estaduais. Há muitas parcerias, mas isso precisa avançar mais.
Temos capital humano, conhecimento técnico e acúmulo de experiência em pesquisa, que poderia e deveria ser utilizada pela Defesa Civil e pelo poder público municipal. Então há caminho para reduzir esse custo. Porque é uma missão institucional das instituições de ensino superior contribuir para esse tipo de situação, a partir da oferta de seus especialistas. Então, se poderia reduzir custos e construir melhores parcerias com as universidades.
Sul21 – O senhor também tem defendido o papel dos Comitês de Bacias Hidrográficas para a adaptação a mudanças climáticas.
Bezerra – O Rio Grande do Sul, por exemplo, é o grande pioneiro na implementação desse colegiado democrático de gestão das águas. Quando você olha para o caso de Rio Grande, você tem como entender com mais de 25 anos já instituído. E tem uma cultura de gestão participativa e descentralizada.
Com participação da sociedade civil, setores produtivos, grandes usuários de água, poder público municipal e estadual, comunidades tradicionais, sindicato rural, sindicato dos trabalhadores e associações. É um espaço que já traz esse potencial para construção de planos pautados na participação. E é muito importante apostar na participação social e popular para construir esses planos de adaptação.
Outro ponto é que, quando você observa a escala do planejamento para adaptação, não se pode limitar o plano apenas ao município. Olha o exemplo do Rio Grande do Sul: as águas que inundam Porto Alegre, não vêm de Porto Alegre. Elas descem da Serra. Então tem um conjunto gigantesco de municípios que precisam trabalhar em conjunto. Quando pensa em uma situação grave de estiagem, vai para a solução da irrigação, tem que trabalhar a escala da bacia de Bauru e não apenas o município.
Sul21 – E o senhor também defende a educação como ferramenta de preparação?
Bezerra – Esses eventos climáticos extremos estão cada vez mais recorrentes e a sua intensidade também vem aumentando, por isso precisamos trabalhar a ideia da educação ambiental climática. E na educação pública, porque já temos uma rede de escolas e de universidades públicas. Professoras e professores são lideranças de maneira muito natural dentro dos municípios.
É um momento muito importante para distribuir e fomentar as ações que já vêm acontecendo de maneira mais pontual para a capacitação da Defensoria Civil. Podemos construir um grande movimento no Estado, e não só aqui obviamente, oferecendo cursos. Temos uma estrutura de universidades públicas e privadas, com laboratórios e profissionais treinados que podem ofertar essa capacitação, no nível de extensão e especialização.
Precisamos formar uma nova geração de gestores de risco e desastre. Tanto para o poder público, municipal e estadual, mas também para as empresas do setor privado. É uma geração que vai ter que lidar com o aumento das incertezas devido aos eventos climáticos.
Quem sabe formar um tecnólogo em gestão de desastres ou de gestão de eventos climáticos extremos, um profissional que consiga pensar os campos da geografia, da engenharia ambiental sanitária, da arquitetura, da agronomia e também que tenha uma interface com outras iniciativas. O potencial da educação é muito grande para contribuir com a adaptação climática.

