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Caravana do Cpers ouve escolas no RS e expõe falta de professores e problemas de infraestrutura

Direção do sindicato visita instituições para fazer mapeamento sobre a situação da educação pública no Rio Grande do Sul

Encontro no Colégio Estadual Júlio de Castilhos reuniu direção sindical e equipes escolares para relatar desafios da rede estadual | Crédito: Rafa Dotti

Problemas estruturais, falta de profissionais e escassez de recursos marcaram os relatos de educadores da rede estadual durante encontro realizado nesta quarta-feira (11) no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, conhecido como Julinho, em Porto Alegre. A atividade integra a caravana organizada pelo Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), que percorre escolas do Rio Grande do Sul para ouvir professores e equipes diretivas e reunir informações sobre a situação da educação pública no início do ano letivo.

Na segunda semana de atividades, a caravana realizou uma agenda de escuta nas escolas públicas da capital gaúcha. Segundo o sindicato, a caravana deve percorrer os 42 núcleos da entidade em diferentes regiões do estado, afim de aproximar a direção da entidade da realidade cotidiana das escolas.

O objetivo é construir um diagnóstico da situação da rede pública estadual ao longo de 2026, incluindo questões de infraestrutura, gestão de pessoal, recursos financeiros e políticas educacionais. A recepção no Julinho foi organizada em formato de roda de conversa entre educadores e representantes do Cpers.

Debater o futuro da educação pública no estado
A dirigente sindical do 39° Núcleo Neiva Lazzarotto, que atua na organização local da atividade, explicou que a presença da direção estadual nas escolas faz parte de um esforço para ampliar o diálogo com os profissionais da educação. “Nós estamos recebendo hoje a caravana que iniciou na semana passada. É uma atividade do nosso sindicato em que a direção estadual do Cpers vai até os núcleos”, afirmou.

A presidenta do sindicato, Rosane Zan, afirmou que a iniciativa também busca estimular o debate sobre o futuro da educação pública no estado. Segundo ela, o sindicato considera fundamental ouvir professores, funcionários e equipes diretivas para compreender os impactos das políticas educacionais adotadas nos últimos anos.

“Nós chegamos a um momento em que precisamos debater qual é o projeto de educação que queremos para o Rio Grande do Sul”, disse. Para a dirigente, a caravana também tem o papel de fortalecer a articulação entre trabalhadores da educação. “Nós vivemos um tempo em que precisamos, sim, da unidade da classe trabalhadora. Os tempos são duros e todos estão vendo o quanto estamos sendo atacados desde 2018”, declarou.

Zan também afirmou que o sindicato critica medidas que, na avaliação da entidade, estariam associadas à privatização e à mercantilização da educação pública. “É o projeto daquele que mercantiliza, que privatiza a educação e promove retirada de direitos”, afirmou.

Infraestrutura e reformas aparecem entre as principais reclamações
Durante a reunião, equipes diretivas de diferentes escolas relataram problemas relacionados a obras e manutenção predial nas instituições. Uma das falas veio da diretora do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, Paula Ribeiro.

Segundo ela, intervenções recentes no prédio histórico não resolveram parte dos problemas estruturais da escola. A diretora afirmou que o colégio passou por obras custeadas pelo governo estadual, mas apontou dificuldades na execução dos serviços.

“Acho que hoje uma das grandes questões é a obra. Um ano atrás o governador esteve aqui assinando compromisso, mas a gente teve que mandar a empresa sair”, relatou.

Ribeiro também mencionou dificuldades relacionadas à gestão administrativa e às demandas burocráticas impostas às equipes diretivas. “Qual é o objetivo desse planejamento que nós fazemos? Por que na conta gestora não tem sequer recursos para água?”, questionou.

De acordo com o relato da diretora, o colégio possui cerca de 40 salas de aula, mas apenas uma pequena parte delas conta com climatização por ar-condicionado.

Rosane Zan, presidente do Cpers, durante encontro da caravana sindical com educadores em escola de Porto Alegre – Foto: Rafa Dotti

Telhado e manutenção pendente em outra escola da região
Situação semelhante foi relatada pela diretora da Escola Estadual Inácio Montanha, Maria Luísa Kircher, também localizada no bairro Santana.

Segundo ela, intervenções realizadas recentemente na instituição não contemplaram problemas estruturais considerados prioritários pela equipe escolar.

“Eu recebi um e-mail dizendo que a empresa estava sendo desligada e depois apareceu uma engenheira da nova empresa. Mas, em vez de fazer o telhado ou a cancha, eles foram fazer a pintura externa”, afirmou.

Kircher relatou que o colégio enfrenta problemas recorrentes de infiltração e alagamento em dias de chuva. A diretora também mencionou dificuldades relacionadas à falta de profissionais em áreas específicas da escola.

Entre os desafios citados estão a necessidade de ampliação do atendimento educacional especializado e carência de professores em algumas disciplinas e turnos.

“Tivemos que abrir o EJA sem ter as mínimas condições de professores”, disse, referindo-se à modalidade de Educação de Jovens e Adultos.

Falta de profissionais e recursos afeta funcionamento de escola integral
A diretora da Escola Estadual Mané Garrincha, localizada no bairro Menino Deus, relatou um cenário que, segundo ela, envolve dificuldades ainda maiores para manter o funcionamento da instituição.

Maria Resplande de Sá explicou que a escola oferece ensino integral para estudantes do primeiro ao quinto ano do ensino fundamental, mas enfrenta carência de profissionais e limitações de recursos.

“A questão do investimento não chegou. Falta recurso humano, falta estrutura”, afirmou.

Ela relatou que a instituição chegou a operar com apenas uma merendeira responsável pela alimentação de quase 400 estudantes. Segundo a diretora, a situação obrigou a escola a suspender temporariamente o funcionamento pleno do ensino integral.

“Eu estava com uma merendeira para quase 400 crianças”, contou.

Posteriormente, a Secretaria da Educação teria encaminhado uma profissional de outra escola para auxiliar temporariamente na cozinha, o que permitiu a retomada das atividades.

“Voltamos com o integral semana passada porque veio uma merendeira por empréstimo”, explicou Sá.

A diretora também mencionou dificuldades para preencher vagas de professores em determinadas disciplinas. “Estou com falta de recursos humanos desde abril do ano passado, por exemplo na disciplina de espanhol”, relatou.

Inclusão escolar também aparece como preocupação
Outro tema abordado durante o encontro foi o atendimento a estudantes da educação especial. Professores e dirigentes escolares relataram dificuldades relacionadas à falta de monitores e profissionais especializados para acompanhar alunos que necessitam de atendimento educacional específico.

Karla Sadoski e Silva, Conselheira do 39° Núcleo do Cpers, afirmou que a ausência desses profissionais tem provocado sobrecarga no trabalho docente e insegurança no atendimento pedagógico.

“A questão dos monitores acaba sobrecarregando. Muitas vezes sentimos que falta acompanhamento real para os alunos da educação especial”, disse.

Segundo ela, professores nem sempre recebem formação suficiente para lidar com determinadas situações em sala de aula. “Eu sinto que muitas vezes não sei lidar direito com a situação”, relatou.

Dina Ferreira, da diretoria do 39° Núcleo do Cpers, que trabalha na Escola NEEJA Menino Deus, afirmou que a ampliação do investimento nessa área é considerada urgente por parte das equipes escolares.

“A gente tem que ter uma campanha de investimento na educação especial que garanta profissionais habilitados”, afirmou.

Debate sobre políticas educacionais e carreira docente
Além das questões estruturais e administrativas, o encontro também abordou temas relacionados à carreira dos trabalhadores da educação e às políticas públicas da área.

Durante a reunião, dirigentes do Cpers mencionaram discussões sobre o plano de carreira do magistério, o reajuste do piso salarial e a situação de aposentados e funcionários de escola.

Neiva Lazzarotto citou debates recentes envolvendo o reajuste salarial do magistério estadual e afirmou que o tema deve ser votado pela Assembleia Legislativa nos próximos dias.

“Na terça-feira que vem vai à votação o projeto do reajuste do piso salarial de 5,4%. Nós temos o problema da exclusão dos funcionários e da exclusão dos aposentados”, disse a dirigente.

Rosane Zan também comentou a situação de concursos públicos para professores e afirmou que o sindicato tem acompanhado o processo. Segundo ela, o edital do concurso do magistério passou por questionamentos e pode sofrer alterações.

“Quando apresentaram aquele primeiro edital, eles erraram. Eles vão ter que reclassificar tudo de novo”, afirmou a presidenta do sindicato.

Caravana deve percorrer diferentes regiões do estado
Após a atividade no Julinho, a caravana seguiu com visitas a outras escolas da capital ao longo da manhã e da tarde. A agenda incluiu instituições localizadas nos bairros Partenon, Restinga, Lami, Cristal e Menino Deus.

Segundo o sindicato, a mobilização também ocorreu simultaneamente em cidades do interior, como Passo Fundo e Três Passos.

A Secretaria Estadual da Educação (Seduc) foi procurada pelo Brasil de Fato RS para comentar os relatos apresentados na reunião. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto para manifestação do governo do estado.

Fonte: Brasil de Fato RS