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9ª Festa da Semente Crioula reafirma resistência camponesa e soberania alimentar e se torna referência em Seberi

Evento homenageou Frei Sérgio e destacou o papel do campesinato na produção de alimentos e geração de renda

A programação incluiu troca de sementes crioulas, feira de produtos da agricultura familiar, atividades de formação e apresentações culturais | Crédito: Jorge Leão

Em um sábado de sol (14), sob uma grande tenda montada na sede da cooperativa camponesa Cooperbio, homens e mulheres de diferentes idades, crianças ligadas ao campesinato e representantes de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais se reuniram em Seberi, no norte do Rio Grande do Sul, durante a 9ª Festa da Semente Crioula. A defesa da agroecologia e do respeito a quem produz o alimento marcou o evento, que também contou com a 4ª Feira da Economia Solidária e o 2º Dia de Campo das Sementes Crioulas.

Promovida pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e pela cooperativa Cooperbio, a festa reuniu cerca de 2 mil pessoas. Participaram camponesas e camponeses, trabalhadores e trabalhadoras urbanos de diversos territórios do Rio Grande do Sul, além de delegações de outros oito estados e quatro países, movimentos da Via Campesina Brasil e organizações internacionais, representantes de universidades, apoiadores institucionais, parlamentares e integrantes do poder público.

Durante o encontro, agricultores e agricultoras reforçaram uma palavra de ordem que sintetiza a luta do campo: “Quem alimenta o Brasil exige respeito”.

A edição deste ano também foi marcada por homenagens ao frade franciscano Frei Sérgio Görgen, dirigente histórico da luta camponesa e do MPA. Reconhecido pela atuação na organização popular, ele dedicou sua trajetória à defesa da reforma agrária, da agroecologia e da soberania alimentar.

A programação incluiu troca de sementes crioulas, feira de produtos da agricultura familiar, atividades de formação e apresentações culturais. A 4ª Feira da Economia Solidária reuniu cerca de 60 feirantes, com alimentos, artesanato, publicações, exposições e rodas de conversa sobre iniciativas que retomam o ideal do Fórum Social Mundial: “Um outro mundo é possível e uma outra economia é necessária”.

Papel estratégico do campesinato
O ato político destacou o papel estratégico do campesinato na produção de alimentos e na geração de trabalho e renda. O jornalista do MPA Marcos Corbari questionou o reconhecimento dado ao setor. “Existe algum segmento econômico e empresarial que gere mais emprego e renda do que o campesinato e a agricultura familiar?”

Em sua fala, Corbari também ressaltou o papel histórico dos agricultores na preservação das sementes e na produção de conhecimento no campo. “Quando falamos em sementes crioulas, lembramos que os primeiros cientistas são o camponês e a camponesa.”

Agroecologia e permanência no campo
Dirigente do MPA, Viviane Chiarello destacou que a Festa da Semente Crioula expressa o debate que o movimento vem construindo sobre a permanência dos camponeses e camponesas no campo e o direito de produzir alimentos saudáveis.

Segundo ela, a iniciativa também reforça a importância da transição agroecológica e da construção de um outro modelo de campo, baseado em relações de respeito entre as pessoas e com a natureza. Chiarello ressaltou ainda o papel fundamental das mulheres na produção de alimentos e na visibilidade do trabalho realizado dentro das unidades produtivas, além da necessidade de fortalecer condições para que a juventude permaneça no meio rural.

Para Chiarello, ao longo dos anos, a festa tem ampliado o debate sobre agrobiodiversidade e fortalecido a troca de sementes entre os participantes. “É um processo muito rico, onde as pessoas trazem sementes, independentemente da quantidade, para colocar ali para a troca. E cada vez mais esse movimento tem crescido”, afirmou.

Além disso, ela pontuou que o evento é um espaço onde o MPA apresenta sua proposta de campo, centrada na agroecologia e no fortalecimento da produção de alimentos. Atualmente, a organização da festa conta com uma comissão ampliada, com mais de 50 pessoas envolvidas, resultado do caráter coletivo da iniciativa.

Investimentos em redes de agroecologia
Durante o evento, foram assinados dois projetos vinculados ao Programa de Fortalecimento e Ampliação das Redes de Agroecologia, Extrativismo e Produção Orgânica (Ecoforte). A iniciativa é apoiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e pela Fundação Banco do Brasil, com foco no fortalecimento de redes territoriais voltadas à agroecologia e ao manejo sustentável da sociobiodiversidade.

Um dos convênios foi firmado com a Cooperbio, presidida por Luiza Pigozzi, e prevê investimento de R$ 1,8 milhão no projeto Ecoforte Redes: Estruturação e Fortalecimento da Rede Alimergia. A iniciativa busca ampliar práticas de manejo sustentável da sociobiodiversidade e fortalecer sistemas produtivos orgânicos e agroecológicos na região.

Outro acordo foi firmado com o Instituto Cultural Padre Josimo, coordenado pelo frade capuchinho Wilson Zanatta. O projeto Ecoforte Redes – Estruturação e Fortalecimento da Rede Camponesa de Agroecologia (RS) receberá investimento de R$ 2,35 milhões e envolve famílias agricultoras, assentamentos da reforma agrária e comunidades quilombolas. As ações incluem produção sustentável, formação técnica e fortalecimento das redes de comercialização solidária.

No encontro também foi apresentada a Plataforma de Bioinsumos da Cooperbio, iniciativa voltada ao fortalecimento da produção agroecológica e à ampliação da autonomia dos agricultores.

Críticas ao agronegócio e defesa da agricultura camponesa
Dirigente do MPA nacional, Plínio Simas destacou que a festa representa o modelo de produção defendido pelo movimento e criticou a tentativa de equiparar a agricultura familiar ao agronegócio. “Isso que vemos aqui é agricultura familiar de verdade, agricultura camponesa, que produz alimento. Muitas vezes existe uma confusão e tentam nos misturar com o agronegócio, mas nós não somos agronegócio.”

Simas também criticou a lógica que prioriza o agronegócio em políticas públicas e investimentos, citando eventos do setor que recebem grande apoio financeiro. Segundo ele, enquanto feiras voltadas ao campesinato lutam para se manter, grandes exposições agropecuárias contam com recursos públicos e estrutura voltada às grandes empresas.

Ele também questionou a dependência tecnológica criada por multinacionais do setor agrícola, especialmente em relação ao pagamento de royalties por sementes. “Em municípios como Palmeiras das Missões, empresas detentoras da tecnologia chegam a receber milhões por ano em royalties da soja. É um dinheiro que sai do território sem retornar para quem produz.”

Para Simas, é necessário inverter as prioridades das políticas públicas. “Os recursos precisam chegar às mãos dos agricultores e agricultoras que querem produzir alimento saudável, sem veneno, sem destruir o meio ambiente e sem concentrar terra”, defendeu.

O saber camponês e a preservação das sementes
Representando a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), o professor Chiquinho Zonin afirmou que a presença da universidade no evento tem relação direta com a origem popular da instituição. “A nossa universidade foi criada por uma vontade popular. Nada mais justo do que estarmos aqui, ao lado de quem lutou e levantou a bandeira para que ela existisse.”

Segundo o professor, equipes de pesquisa e extensão da universidade participam do evento realizando estudos com feirantes, guardiões de sementes e redes de produção agroecológica, em parceria com movimentos do campo.

Zonin também destacou a valorização do conhecimento acumulado pelas famílias agricultoras na preservação das sementes. “Cada semente é uma chave dos sistemas alimentares. Nós, enquanto pesquisadores e professores, reconhecemos toda a sabedoria desse povo que preserva essas sementes ao longo das gerações.”

Ele também criticou a concentração de patentes nas mãos de grandes empresas do setor agrícola e defendeu maior reconhecimento ao trabalho dos agricultores que preservam a diversidade genética das sementes.

Importância dos guardiões de sementes
Representante da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Eberson Diedrich Eicholz afirmou que a instituição participa da festa todos os anos e tem buscado ampliar o acesso das famílias agricultoras ao patrimônio genético conservado pela empresa. “A gente procura trazer para os guardiões e guardiãs as sementes que estão armazenadas nos bancos genéticos da Embrapa. É uma forma de retribuir tudo o que os agricultores fizeram ao longo de tanto tempo”, explicou.

Segundo ele, muitas variedades consideradas desaparecidas ainda são preservadas por famílias agricultoras. “Às vezes pensamos que uma cultura se perdeu, mas ao visitar as famílias guardiãs encontramos essas sementes. Isso mostra a riqueza que existe no campo.”

Movimento de Mulheres Camponesas reforça resistência no campo
A militante do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC) Joana Sebben destacou a importância da participação das mulheres na defesa da agroecologia e das sementes crioulas. “É uma alegria estar nesse encontro da família camponesa, onde se reúne o povo que luta pela vida no campo e pela agroecologia.”

Segundo ela, o movimento completa 43 anos de atuação na defesa da produção de alimentos saudáveis e na valorização do trabalho das mulheres no campo. “Seguimos firmes na luta por uma alimentação melhor para as famílias e para todo o povo”, disse.

Fonte: Brasil de Fato RS