Lulistas e bolsonaristas disputam legados de Paim e Heinze, enquanto candidaturas de centro-direita apostam em segundo voto

Foi em 1986, com o país vivendo o processo de redemocratização, a última vez em que uma eleição com duas vagas ao Senado no Rio Grande do Sul não teve nenhum candidato à reeleição. Naquele ano, o PMDB conseguiu as duas vagas, com José Fogaça e José Paulo Bisol. Os detentores das vagas eram Pedro Simon (PMDB), que concorreu ao Governo do Estado, e foi vitorioso, e Octávio Cardoso (PDS), senador “biônico”, nomeado pela ditadura militar, que não tentou se eleger democraticamente.
A situação irá se repetir em 2026. Paulo Paim (PT) e Luis Carlos Heinze (PP) não tentarão a reeleição. Com isso, a eleição para o Senado, que já costuma ter resultados surpreendentes, se torna ainda mais imprevisível.
“O candidato que já concorreu e, sobretudo, os que têm mandato, têm uma visibilidade importante, isso confere o chamado recall. Esses nomes despontam com uma vantagem importante”, analisa o cientista político Carlos Eduardo Bellini Borenstein.
Nesse sentido, a confirmação de que o governador Eduardo Leite (PSD) não tentará uma das vagas à câmara alta também ajuda a embaralhar o cenário. “Quando tinha o nome do Eduardo Leite, ele liderava. Esse é outro aspecto importante, sem o Leite, fica ainda mais imprevisível”, afirma Bellini.
O cientista político ressalta que as eleições para o Senado historicamente já são pouco previsíveis porque a decisão do eleitor costuma ser de última hora. “O eleitorado tem se definido cada vez mais tarde, principalmente aquele eleitor que não tem costume de se informar, de acompanhar política, que acaba sendo decisivo. Um segundo aspecto é que diante da polarização em que a gente vive, a eleição presidencial acaba concentrando as atenções. Em segundo plano, o eleitor olha para a eleição de governador. E ele acaba se decidindo muito em cima da hora para os dois votos ao Senado. Aliás, muita gente nem sabe que a gente vai eleger dois senadores neste ano. Isso cria um grau de imprevisibilidade bastante considerável”.
Três campos, duas vagas
Nas últimas três eleições com duas vagas, sempre se elegeu Paulo Paim e um nome de direita, que se alternou e foi ficando cada vez mais radicalizado. Em 2002, Sérgio Zambiasi (PTB) foi eleito; em 2010, Ana Amélia Lemos (PP) e, em 2018, Luis Carlos Heinze (PP).
As pré-candidaturas apontam para Manuela D’Ávila (PSOL) e Paulo Pimenta (PT) tentando herdar o legado de Paim. No bolsonarismo, Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL) devem buscar os votos de Heinze. O campo que orbita em torno de Eduardo Leite e apoiará a candidatura ao Governo do Estado de Gabriel Souza (MDB) traz como pré-candidatos o ex-governador Germano Rigotto (MDB) e Frederico Antunes (PSD).
“Todos têm uma história na política há muito tempo. Ninguém é marujo de primeira viagem. No mínimo, já foram federal ou estadual. E pode acontecer tudo. Eles [os candidatos bolsonaristas] podem fazer a dobradinha e colar, como a Manuela e o Pimenta também. Tem também os que vão buscar o segundo voto de ambos. Dá para dizer que polariza mais esses dois campos, mas não dá para esquecer que o Rigotto também está na área”, avalia o senador Paulo Paim.
O cientista político Carlos Bellini avalia que o escândalo do Banco Master confere vantagem a Marcel Van Hattem na disputa. “No cenário de hoje, existe certa vantagem inicial do Marcel Van Hattem, porque os eleitores sabem que um dos papéis do senador é votar impeachment de ministros do Supremo. E o Marcel trabalha muito com essa pauta. Então, a partir do momento em que existe esse desgaste, ele tem vantagem inicial para essa vaga. Mas, claro, é uma eleição que está em aberto”, projeta.
Dado o histórico das eleições anteriores, Bellini considera improvável que o bolsonarismo emplaque as duas vagas, ainda que este campo tenha surpreendido nas últimas eleições ao Senado, com candidaturas que passam abaixo do radar das pesquisas, mas se elegem. “Há uma dinâmica onde os polos se mobilizam”, diz.
No campo da esquerda, o cientista político avalia que a adesão ou não do PSOL à frente em apoio a Juliana Brizola é fundamental para projetar o cenário. “Caso o PSOL faça parte dela, a gente teria a maior frente de esquerda da história numa eleição para o Governo do RS, em que pese esse processo desgastante de discussão interna. Se o PSOL não entrar, a Manuela tem um prejuízo muito grande, porque ela tem uma inserção digital muito forte, mas ficaria com 20 segundos de televisão, e o Pimenta ficaria com cerca de três minutos da aliança com PSB e PDT. Então, teria vantagem do Pimenta e enfraquecimento da Manuela. Ele ficaria com a maior exposição, a máquina do PT trabalhando a favor dele, e ele tem uma inserção no eleitorado do PDT no interior do Estado”.
Bellini vê dificuldades para candidaturas que não estejam vinculadas nem ao lulismo nem ao bolsonarismo. “Como a eleição para o Senado não tem dois turnos, o candidato que faz de 25% a 30% está muito próximo de conquistar o mandato. É um desafio para a candidatura de centro. Ele pode pegar o segundo voto, mas a tendência é que os polos se mobilizem mais”.
Ainda assim, ele considera que os nomes da chapa governista têm chances. “A gente tem também uma candidatura forte que é a do ex-governador Germano Rigotto, que vai ser um dos principais candidatos ao Senado, dentro da chapa do Gabriel Souza, e vai ter engajamento do Eduardo Leite. E também tem o nome do Frederico Antunes, que também pode crescer. Ele tem muita inserção no voto mais conservador no interior do Rio Grande do Sul. Então, essa disputa pela segunda vaga tende a ser muito acirrada”.
Além das três chapas que despontam nas pesquisas de intenção de voto, o PSDB corre por fora, com uma chapa pura. O ex-prefeito de Guaíba, Marcelo Maranata, concorrendo ao Governo do Estado. O jornalista Milton Cardoso e o ex-deputado federal Cláudio Diaz serão os candidatos ao Senado.
Furar a bolha, a receita de Paim para a esquerda
Com três eleições ao Senado na bagagem, Paulo Paim afirma que a receita para Manuela D’Ávila e Paulo Pimenta herdarem seu legado é não ficarem restritos ao eleitorado de esquerda. “Eu trabalharia muito em cima do segundo voto. Quem achar que é só o voto do seu time, que vai ficar naquele seu círculo, terá problemas. Quem olhar de forma mais ampla terá mais condições de se eleger”.
Nesse sentido, ele defende que os candidatos não entrem também na lógica do conflito entre lulismo x bolsonarismo. “Quem sectarizar não chega. Todos dependem do segundo voto. Eu sempre fui alguém de diálogo, de conversa. Eu não entro na política de nós e eles, ódio para lá e ódio para cá. Se eu fosse candidato, não entraria nisso de ficar um atirando no outro. Se quer o segundo voto, tem que ter uma visão ampla”.
Com três nomes de cada unidade da federação, o Senado é considerado uma representação dos estados no Congresso. Para Paim, é necessário trabalhar dentro dessa lógica. O senador ressalta que, na enchente de maio de 2024, trabalhou muito em conjunto com os senadores bolsonaristas Hamilton Mourão e Luis Carlos Heinze. “Ouvi críticas, mas o Rio Grande estava em primeiro lugar. Assumi minha posição com muita tranquilidade, dialoguei com todos. E assim sempre nós agimos, com Simon, com Zambiasi”, conta.
Apesar de reforçar o diálogo, o petista lembra que foram suas causas que o levaram para o Senado. “Eu tive quatro eleições para deputado federal. Eu só fui para o Senado porque tinha um passado na Câmara que valia mais o que estava negociado [entre patrão e trabalhador] do que o legislado. Eu perdi na Câmara e disse ‘vou para o Senado vou derrubar lá’. Eu fui com causa, com meta. Fui para aprovar o Estatuto do Idoso, que já tinha aprovado na Câmara, da Igualdade Racial, política de salário mínimo. Em primeiro lugar é isso, não adianta você achar que vai se eleger porque tem mais dinheiro, ou mais apoio. Quem não conseguir mostrar porque está indo para lá, e quem foi no passado, as chances serão mínimas”.
Segundo voto anima MDB
O deputado estadual e presidente do MDB no RS, Vilmar Zanchin, ressalta que a força da sigla no interior pode fazer com que Germano Rigotto seja a primeira opção de muitos eleitores. “O MDB é um partido forte. Estamos estruturados em 470 municípios. Então a gente confia muito, pelo perfil dele, pela longa trajetória, por ser um cara conhecido, embora não esteja exercendo mandatos há algum tempo, mas que foi governador”, diz.
Ainda assim, ele reconhece o quanto a disputa nacional influencia o pleito e aposta no segundo voto como possibilidade para eleição do ex-governador. “A gente não desconhece essa polarização. No entanto, para o Senado são dois votos e o Rigotto tem a possibilidade de ser o segundo voto dos candidatos que estão no espectro político mais à esquerda e à direita”.
Nesse sentido, Zanchin diz que a eleição ao Governo do Estado de 2002 pode servir de inspiração. O pleito foi marcado pelos embates entre Antônio Britto (então no PPS) e Tarso Genro (PT), e pela eleição inesperada de Rigotto, com um coração como símbolo e um discurso apaziguador. “Ele vem com um discurso mais moderno, evidente, mas o cenário é muito semelhante”, diz.
Para o dirigente do MDB, Rigotto também deverá se apresentar como um defensor dos interesses do Estado, acima das disputas políticas. “Pelo perfil dele, de diálogo, de não se identificar com os dois polos que estão predominando, acho que ele tem chance de penetrar bem na sociedade. É um candidato que vai exercer o mandato de senador com a plenitude, que é defender os interesses do Estado. A pauta dele não vai ser combater o outro lado do espectro político”.
Bolsonarismo aposta em dobradinha
Presidente estadual do PL e deputado federal, Giovani Cherini manifesta confiança de que chapa bolsonarista poderá eleger dois candidatos. “Nós vamos apostar todas as fichas no voto casado, no voto nos dois. Não tem primeiro voto e segundo voto. Queremos um voto único, para os dois”. Nesse sentido, não vê como ameaça a candidatura de Germano Rigotto, que pode levar o segundo voto de eleitores bolsonaristas. “Ele já teve candidaturas. Ameaçou e morreu na praia. Eu acho que passou o tempo dele. A gente respeita, mas a gente acha que o eleitor gaúcho vai querer renovar o Senado”.
Tendo em vista que Heinze surpreendeu em 2018 e Mourão fez o mesmo em 2022, Cherini projeta que esse voto de última hora em candidaturas bolsonaristas pode ser ainda maior em 2026. “Eu acho que vai ser mais forte ainda do que foi nas últimas eleições. O gaúcho é muito justiceiro, não aceita injustiça. Isso que está acontecendo com o Bolsonaro, eu acredito que vai se reverter em apoio para nós”, diz.
Por outro lado, Cherini pondera que a prisão de Jair Bolsonaro também pode trazer prejuízos às candidaturas. Ele conta que o ex-presidente costumava gravar vídeos na reta final pedindo votos aos candidatos. “O segredo sempre foi o reforço que o Bolsonaro dava gravando vídeos, a gente espera que possa ter alguma manifestação do Bolsonaro. Deixar o Bolsonaro preso é uma estratégia para tentar calar a direita”, acusa.
Cherini acredita ainda que o número de Sanderson, semelhante ao de Flavio Bolsonaro e de Luciano Zucco, poderá favorecer o candidato do PL, bem como o tempo de televisão. “O tempo de televisão do nosso candidato é grande, e ele vai poder mostrar que é um cara da Polícia Federal, da segurança pública”.
Fonte: Felipe Prestes / Sul 21

