Partido ameaçou lançar candidato próprio, mas deve capitular para não prejudicar Manuela D’Ávila

Um longo texto da deputada Luciana Genro encaminhada aos companheiros do PSOL dá o rumo que o partido deve tomar na eleição. É o do “apoio crítico” a Juliana Brizola, em nome do combate à extrema direita no Rio Grande do Sul e no Brasil.
No documento, intitulado “Apontamentos sobre a tática eleitoral no Rio Grande do Sul”, a presidente estadual do PSOL reitera suas restrições à aliança com o PDT, que participou dos governos de José Ivo Sartori e Eduardo Leite, e não poupa críticas ao PT em geral e a Paulo Pimenta em particular, mas diz que a prioridade deve ser a reeleição do presidente Lula, sem perder a identidade.
Por “apoio crítico” leia-se não ocupar cargos no governo em caso de vitória.
Já a corrente interna Fortalecer PSOL, que tem como líderes Neiva Lazzarotto e Berna Menezes se reuniu no sábado e decidiu seguir lutando pela candidatura própria
— É verdade que o MES (Movimento Esquerda Socialista, de Luciana) é a maior corrente do PSOL, mas ainda não foram convocadas as instâncias partidárias. Estamos aguardando a data da reunião para o debate da decisão oficial do partido, que esperamos ocorra, preservando a democracia partidária — disse Neiva à coluna.
Confira a íntegra do documento divulgado por Luciana:
“O PSOL cumpriu um papel muito importante na luta contra a intervenção da direção nacional do PT que derrubou a candidatura do Edegar (Pretto). Foi uma luta política dos setores mais à esquerda do PT gaúcho contra a ala mais à direita representada por (Paulo) Pimenta. Ao mesmo tempo em que estivemos ao lado de Edegar, não nos integramos ao bloco político composto pela federação do PT junto com o PSB para declarar apoio imediato a Juliana Brizola. Ao contrário, no curso da luta afirmamos a nossa independência inclusive cogitando a possibilidade de candidatura própria no caso de intervenção, e não comparecemos na entrevista coletiva dos partidos quando Edegar anunciou o apoio à Juliana. Foi uma postura correta e altiva.
Agora precisamos ir à análise concreta da situação. A extrema direita está forte no mundo inteiro, apesar das derrotas pontuais que tem sofrido. A Conferência Antifascista, iniciativa do MES, foi um momento fundamental de unidade das forças progressistas contra o fascismo. Saímos reconhecidos deste processo, após um tempo de isolamento fruto da nossa posição de, mesmo sendo contra o impeachment de Dilma (Rousseff), não participar dos atos “Fica Dilma”. Com a conferência demonstramos que não só compreendemos a situação atual e a necessidade da unidade da classe para enfrentar o fascismo, como também mostramos como se constrói essa unidade não só no terreno eleitoral.
No Brasil, apesar da prisão de (Jair) Bolsonaro, a candidatura do Flávio (Bolsonaro) aparece empatando nas pesquisas com Lula. Será uma dificuldade enorme reeleger Lula, num cenário em que o governo também não se ajuda nas entregas e nos enfrentamentos necessários. Por isso defendemos que o PSOL deve estar com Lula já no primeiro turno, mesmo a aliança se dando juntamente com partidos burgueses, e sendo o próprio vice de Lula uma expressão da burguesia paulista. Se o cenário fosse outro, certamente defenderíamos a candidatura própria a nível nacional. Diante desse quadro aceitamos o PSOL estar na chapa de Lula, mas não que integre o governo. Uma coisa é o apoio eleitoral para derrotar a extrema direita, outra coisa é governar num projeto de conciliação de classes com peso forte de setores burgueses, como é o governo Lula. O PSOL deve manter sua independência, fazendo os enfrentamentos necessários, como foi o caso do voto contra o arcabouço fiscal e da luta em que apoiamos os indígenas contra a privatização dos rios. Essa batalha foi travada e vencida parcialmente.
Aqui no RS a situação não é muito diferente da nacional. A extrema direita representada por (Luciano) Zucco conseguiu formar um palanque forte de partidos nesta aliança, deslocando o PP do governo Leite para a chapa de Zucco, e este é o maior partido do Estado, que governa o maior número de prefeituras. Gabriel (Souza) terá o apoio direto de Leite, que incrivelmente segue com apoio de acordo com as pesquisas, e representa o neoliberalismo puro, a continuidade desse projeto privatista e de ataque aos servidores. Existe a possibilidade real de um segundo turno entre Zucco e Gabriel, e o PSOL com candidatura própria no RS poderia ser o responsável por esse segundo turno desastroso. Ao meu ver, mesmo com o PSOL dando voto a Juliana esse risco é grande.
Não vejo, por exemplo, que o funcionalismo público, setor mais atacado por Leite, possa se deslocar massivamente para uma candidatura do PSOL, mesmo contrariado pela chapa encabeçada por Juliana. O funcionalismo vai se agarrar à chapa Juliana + PT como única esperança eleitoralmente viável para derrotar o neoliberalismo puro de Gabriel e a extrema direita de Zucco. De fato, na minha opinião, um governo do PDT e PT seria muito mais permeável às pressões populares do que um governo do MDB ou PL. Essa é a esperança que vai coesionar os servidores e amplos setores mais progressistas em torno da chapa PDT+PT.
Outro elemento que precisamos analisar nessa construção é a candidatura da Manuela (D’Ávila) ao Senado pelo PSOL. Não é pouca coisa a possibilidade do PSOL eleger uma senadora pelo Rio Grande do Sul. Isso fortalece o PSOL gaúcho, que é dirigido pelo MES, portanto fortalece o MES também.
Evidentemente que a Manuela não é MES e não temos ilusões quanto a isso. Ela, entretanto, cumpriu um papel fundamental na luta contra Boulos e sua política de colocar o PSOL no bolso de Lula. Se não fosse Manuela, é possível que a Primavera não tivesse se mantido firme, e hoje o PSOL estaria na Federação com PT. Seria o fim de um projeto independente. Manter Manuela como nossa aliada internamente é muito importante neste momento. Ela pode ser decisiva nos próximos enfrentamentos, pois Boulos não saiu do PSOL, e se Lula mandar ele vai seguir tentando cooptar o partido para sua política e até retomar o debate da federação.
Manuela está em primeiro lugar nas pesquisa, mas numa chapa pura do PSOL suas chances se reduziriam muito, e é possível que ela nem se disponha a concorrer. Teríamos o cenário do Senado com Pimenta se beneficiando da decisão do PSOL de sair da chapa. E a principal força dentro do PT gaúcho que atuou pelo fim da candidatura do Edegar e pela aliança com o PDT foi justamente o grupo do Pimenta. E isso não foi à toa, ele quer o PSOL fora da chapa pra facilitar a sua eleição e tirar a Manuela do jogo pois obviamente é quase impossível que um dos senadores eleitos não seja da direita. Sem a capilaridade do PT no interior é muito difícil vencer uma disputa majoritária como o Senado. Pimenta saiu bastante chamuscado deste processo pois toda militância sabe que ele atuou contra Edegar, portanto a militância do PT está muito mais entusiasmada com a candidatura de Manuela. Mas se ela estiver fora da chapa ficará muito mais difícil essa sinergia. É o que Pimenta deseja para facilitar sua eleição.
Defendo, portanto, que o PSOL integre de forma crítica esta chapa, dando nossos votos para tentar impedir um segundo turno entre Gabriel e Zucco e também a chance real de Manuela eleger-se senadora. Evidentemente, assim como a nível nacional, estar na chapa não significa integrar o governo. Este debate terá que ser processado a seu tempo em caso de vitória, mas desde já devemos dizer que o PSOL não deverá integrar o governo, preservando sua independência e mantendo a liberdade de atuação e enfrentamento diante de medidas que sejam contrárias aos interesses do povo.
Luciana Genro”
Fonte: GZH

