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Com milhares de migrantes, Passo Fundo assume papel central no acolhimento regional

Pesquisadora avalia que movimento migratório recente no município pode ser dividido em dois momentos distintos

Celebração Grande Magal de Touba dos senegaleses. Foto: Diogo Zanatta/Divulgação

Nos últimos dez anos, Passo Fundo deixou de ser apenas um destino pontual de imigrantes para se consolidar como um polo regional de acolhimento no Norte do Rio Grande do Sul. O município, que concentra serviços como a Polícia Federal para uma área de 123 cidades, passou a receber diferentes ondas migratórias, refletindo transformações globais e regionais.

Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), a cidade ocupa a quarta colocação no Estado, com cerca de 3.200 vínculos formais — o equivalente a aproximadamente 6% do total registrado no Rio Grande do Sul, que ultrapassa 50 mil migrantes. Mesmo sem um número oficial consolidado, a estimativa é de que entre 5 e 8 mil migrantes vivam atualmente no município, considerando também crianças e famílias. A análise é da professora Patrícia Noschang, coordenadora do Balcão do Migrante e Refugiado da Universidade de Passo Fundo (UPF).

De acordo com a pesquisadora, o movimento migratório recente pode ser dividido em dois momentos distintos. Entre 2015 e 2018, predominou a chegada de africanos, especialmente senegaleses e bengaleses, impulsionados tanto pelo comércio ambulante quanto pela demanda da indústria alimentícia, principalmente no corte halal (processo de abate que busca o mínimo sofrimento animal e deve ser feito por um muçulmano).

A partir de 2019, o cenário muda e passa a ser marcado por migrantes latino-americanos, como venezuelanos, colombianos, cubanos e haitianos — muitos deles classificados como migrantes de sobrevivência, que deixam seus países por crises políticas, econômicas ou humanitárias.

Mais recentemente, também cresce a presença de argentinos e paraguaios, muitos deles atuando em áreas rurais da região.

Entre números e histórias: a vida de quem chega
Por trás dos dados, estão histórias como a do senegalês Moustapha Diouf, de 33 anos, que vive em Passo Fundo desde 2015. Hoje motorista de aplicativo, ele encontrou na cidade a chance de recomeçar. “Foi uma forma de construir minha vida com dignidade”, afirma.

Moustapha conta que chegou ao município em busca de oportunidades, como todo imigrante. “No Senegal é mais difícil conseguir trabalho. Aqui, quem quer trabalhar consegue”.

Muçulmano, Moustapha mantém sua rotina religiosa com cinco orações diárias e participação na comunidade islâmica local. Ele também destaca celebrações como o Grande Magal de Touba, momento de agradecimento a Deus.

Apesar de viver longe da família, que permanece no Senegal, ele se diz adaptado. “Passo Fundo me conquistou. Não é uma cidade grande demais, nem pequena, tem tudo o que eu preciso”, diz.

A presença muçulmana também é representada por lideranças mais antigas, como Radwan Mohamed Jehani, de 65 anos, que vive na cidade desde 1997.

Ele chegou ao Brasil a trabalho, convidado por um frigorífico para atuar na fiscalização da produção voltada ao mercado islâmico internacional. Antes de se estabelecer em Passo Fundo, passou por cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. “Eu amo Passo Fundo. Foi aqui que construí minha família e fiz amizades”, afirma.

Radwan estima que haja cerca de mil muçulmanos na cidade e região. Segundo ele, a adaptação foi positiva, apesar de episódios pontuais de preconceito. “São situações isoladas. No geral, fui bem acolhido.”

Radwan Mohamed Jehani em conversa sobre islamismo com alunos da rede municipal. Ele é diretor da unidade local do Instituto Latino-Americano de Estudos Islâmicos – ILAI.

Migração feminina e novos caminhos
Entre os novos fluxos migratórios, a presença de mulheres também ganha destaque, como no caso da venezuelana Leidy Josefina Durán de Briceno, de 51 anos. Há quatro anos em Passo Fundo, ela chegou após uma passagem pelo Uruguai, onde enfrentou dificuldades com o alto custo de vida. “Lá era muito difícil para imigrantes. Aqui foi diferente, fomos muito bem recebidos”, conta.

Hoje trabalhando como auxiliar de limpeza, Leidy destaca a acolhida e as oportunidades encontradas. “Passo Fundo tem gente muito boa, muito receptiva. Para mim, morar aqui foi uma bênção.”

Mãe de três filhos e avó de três netos, ela vive com uma das filhas, que estuda em escola pública e já domina o português. A maior dificuldade, segundo ela, foi justamente o idioma. “Mas tudo foi se ajeitando. Aqui tem trabalho e oportunidade. Por isso decidimos ficar.”

Sem condições financeiras de retornar à Venezuela com frequência, Leidy resume o sentimento de quem recomeça longe de casa: “A gente sai porque precisa sobreviver. E aqui conseguimos viver melhor.”

Desafios persistem
Mesmo com histórias de integração, os desafios seguem presentes. A professora Patrícia Noschang destaca que a principal dificuldade ainda é a regularização documental, devido à alta demanda nos órgãos públicos.

A barreira do idioma também impacta diretamente na inserção profissional. “Quem domina o português tem mais oportunidades, especialmente no contato com o público”, explica.

O papel do Balcão do Migrante
Criado em 2020, em meio à pandemia, o Balcão do Migrante e Refugiado da UPF surgiu para atender, inicialmente, venezuelanos que enfrentavam dificuldades básicas, como abrir conta bancária ou regularizar documentos.

Hoje, o projeto vai além. “Auxiliamos na regularização documental, mas também na inserção local: acesso ao trabalho, moradia, serviços e entendimento da dinâmica da cidade”, explica a coordenadora.

O projeto também integra a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, ligada ao Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), e mantém convênio com a Polícia Federal — uma parceria ainda rara no país.

O impacto dessa mobilidade vai além dos limites de Passo Fundo. O Balcão do Migrante e Refugiado atende pessoas de toda a região. “Só no último ano, atendemos migrantes de 56 nacionalidades diferentes. Isso mostra a diversidade e também o papel regional que o município exerce”, destaca Patrícia.

Fonte: Rosangela Borges / Sul 21