Estado tem 3,8 milhões de kW em potência instalada, mas infraestrutura não acompanha crescimento

O Rio Grande do Sul é o quarto maior produtor de energia solar entre os estados do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. São mais de 3,68 milhões de kW em potência instalada, atendendo a 530 mil unidades consumidoras. São dados que o governador Eduardo Leite (PSD) divulga com entusiasmo em eventos como a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP 30). Mas especialistas ouvidos pelo Sul21 apontam que a infraestrutura do estado não tem dado conta de transmitir e distribuir toda essa energia, principalmente porque a distribuição ocorre também no chamado fluxo reverso: se antes a energia apenas saía de uma central e chegava nas casas, agora os imóveis que possuem painéis solares geram sua própria energia e também adicionam essa potência à rede.
A potência instalada no estado tem crescido exponencialmente nos últimos anos, mas recentemente o setor de energia solar tem enfrentado dificuldades para aprovar projetos em determinadas localidades do estado.
A professora da UFRGS Aline Pan, doutora em Energia Solar Fotovoltaica e especialista em Energias Renováveis, explica que existem dois tipos de geração de energia solar. A centralizada, executada em usinas voltadas para a geração de altas potências; e a distribuída, no caso dos imóveis que geram energia para consumo próprio. “Ambas enfrentam problemas no estado pela limitação e insuficiente modernização da rede. Quando se fala de geração centralizada, o problema é nas linhas de transmissão. Quando falamos em geração distribuída, o problema é na distribuição”, afirma.
A diferença entre transmissão e distribuição pode ser explicada usando rodovias e ruas como analogia. A transmissão ocorre entre uma usina e uma central, que fica mais perto das unidades consumidoras – passando por uma estrutura mais robusta, como a das rodovias, por causa da alta potência. A distribuição, que ocorre com a potência já reduzida na central, chega aos imóveis através de “ruas” – estruturas menos complexas e em maior quantidade.
Atualmente, todos os municípios gaúchos têm instalações fotovoltaicas de geração distribuída. Os campeões são Porto Alegre e Caxias do Sul, cada um deles com potências na casa dos 120 mil kW em 12 mil instalações; em seguida vem Novo Hamburgo, com 26 mil kW em 8,8 mil instalações. A Serra e o Vale dos Sinos são regiões que correspondem, cada uma, a 10% da potência de energia solar instalada no Rio Grande do Sul.
A maior classe de consumo no estado é residencial, que corresponde a 52% da potência instalada e a 76% do total de instalações.
“O problema que está começando a aparecer de forma mais intensa é com a rede de distribuição, a partir do fluxo reverso”, afirma Aline. As “ruas” por onde circula a energia foram projetadas para o fluxo apenas em um sentido – da central de distribuição para as unidades consumidoras. Quando a potência gerada nas casas começa a circular no sentido contrário, acontece como se fosse um “engarrafamento” nesta rua. “Já dependemos de uma estrutura menos complexa para isso, e ainda temos uma defasagem dela”, acrescenta a especialista.
Antes que esse “engarrafamento” provoque uma sobrecarga na rede, por exemplo, causando instabilidades e riscos operacionais para os consumidores, as concessionárias deixam de aprovar novas ligações de energia solar onde a rede está perto de atingir certo limite.
“A distribuidora não responde que não é possível fazer [uma nova ligação]”, explica Mara Schwengber, coordenadora estadual da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR – RS). “Ela responde que é possível se forem atendidos determinados requisitos, que na prática são financeiramente inviáveis. Então, é uma negativa”.
Não existem dados exatos de onde essa negativa é mais frequente, mas Mara afirma que isso está acontecendo mais na região do estado atendida pela RGE: “praticamente todos os projetos que a gente manda, de usinas remotas ou geração junto à carga, onde a intenção é mandar crédito para outra unidade consumidora, são negados. Por outro lado, na região da CEEE Equatorial, em função de ter menos usinas instaladas ainda, a gente tem um índice menor de reprovação”.
Aline tem um exemplo prático dessa recusa por parte das distribuidoras. Houve uma tentativa de instalar uma usina de geração centralizada no campus da UFRGS em Eldorado do Sul, onde fica a estação agronômica da universidade. “A gente queria botar uma usina um pouco maior do que a demanda do campus, para utilizar créditos de energia para compensar o consumo de outras unidades da universidade, e não conseguimos”, relembra. “Nós fomos barrados pela distribuidora local, porque na época – há mais de dois anos – a rede não suportaria uma usina de 5 MW. Toda a infraestrutura de rede precisaria ter uma melhoria”.
A operação do sistema elétrico brasileiro envolve diferentes agentes, sendo as distribuidoras responsáveis pela conexão e gestão local da geração distribuída, enquanto o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) atua na coordenação da operação do Sistema Interligado Nacional. Acontece que é difícil prever quanta energia vai ser gerada a cada momento. Se um galho de árvore faz sombra em parte do painel solar, por exemplo, a potência gerada já diminui. Por outro lado, muitas unidades geram mais energia do que consomem, e essa potência “extra” volta para a rede.
“Com o crescimento da geração distribuída, o equilíbrio entre oferta e demanda e a operação da rede tornam-se mais complexos, especialmente em regiões onde a infraestrutura elétrica já opera próxima do limite”, detalha Aline. “Por isso, em alguns casos, as distribuidoras acabam restringindo novas conexões até que sejam realizados investimentos e melhorias na rede. Essa é uma solução momentânea, mas o certo seria avaliar a necessidade das cidades e criar estruturas para geração distribuída”.
Aline pontua ainda que, devido a esses obstáculos, a energia solar pode parar de crescer na mesma proporção de hoje no estado. Os investimentos para ampliar a capacidade da rede elétrica e permitir a expansão sustentável da geração distribuída precisam envolver múltiplos atores, incluindo governos federal e estadual, distribuidoras, agentes reguladores e mecanismos de planejamento energético de longo prazo. “O governo incentiva novas fontes de energia, mas, para isso acontecer, deve andar paralelamente o desenvolvimento e a adaptação do setor elétrico como um todo, para haver robustez que possibilite esse crescimento”, afirma.
“A transição energética exige não apenas expansão da geração renovável, mas também investimentos em transmissão, distribuição, digitalização e modernização da infraestrutura elétrica. O próprio Plano Nacional de Transição Energética (Plante) já aponta a necessidade de expandir e modernizar as redes de transmissão e distribuição frente ao crescimento das fontes renováveis e dos recursos energéticos distribuídos”, salienta a professora. “Historicamente, o sistema elétrico brasileiro foi estruturado para grandes fontes centralizadas. Com o crescimento das fontes renováveis distribuídas, especialmente a solar fotovoltaica, torna-se necessário adaptar a infraestrutura elétrica para operar de forma mais flexível, bidirecional e resiliente. Esse investimento também faz parte da transição energética”.
O engenheiro eletricista Flavio Arthur Ferreira, professor da Escola Politécnica da PUCRS, pontua que pode haver um problema de fiscalização da energia solar no Brasil. “Hoje, a regulamentação principal é o marco legal da micro e mini geração. Embora estabeleça as regras de acesso e de compensação de energia, não prevê um mecanismo sistemático de fiscalização contínua da potência instalada após a conexão”, afirma.
Na prática, o consumidor solicita acesso para uma determinada potência, tem o projeto aprovado pela distribuidora e a unidade é conectada. A partir desse momento, eventuais ampliações do sistema deveriam ser comunicadas e submetidas a nova aprovação, mas nem sempre o são, em razão da ausência de monitoramento físico permanente. “Como consequência, os dados oficiais de potência instalada refletem a capacidade declarada e homologada, podendo não capturar integralmente eventuais expansões irregulares, o que sugere uma possível subestimação da potência efetivamente instalada”, detalha o professor.
Segundo Flávio, os consumidores mais impactados pela precariedade da rede de distribuição são os que vivem na zona rural e na periferia das cidades. “Nesses locais, as redes de distribuição são mais simples e menos robustas, os impactos das restrições de capacidade aparecem mais rapidamente, afetando de forma desproporcional os consumidores dessas regiões”.
O Governo do Estado, através do Departamento de Energia da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (DE/Sema), informou ao Sul21 que acompanha o estado atual e as necessidades de expansão das redes de transmissão e distribuição de energia elétrica, atuando junto às Concessionárias de Energia Elétrica (CEEE Equatorial e RGE) e aos órgãos nacionais de planejamento e regulação, tais como Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Ministério de Minas e Energia (MME), Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e ANEEL.
Além disso, o Executivo gaúcho afirma que tem atuado, desde 2020, através do programa Energia Forte no Campo (EFC), para qualificar as redes de distribuição de energia elétrica na zona rural, mediante investimentos em obras de redes elétricas trifásicas, atendendo inúmeros municípios e milhares de gaúchos que residem e trabalham no campo, em parceria com as Cooperativas de Eletrificação Rural. “Tais melhorias permitem o aumento da carga e da potência de energia elétrica a ser consumida internamente nas propriedades, ampliando as condições de produção e permitindo maior qualidade de vida aos beneficiados”.
As informações sobre instalações de energia solar que a Sema divulga em um painel de acesso público são obtidas através de dados disponibilizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).
Energia para todos?
Mara, da ABSOLAR, acredita que a aposta em baterias pode ser uma solução para o problema. Essa ferramenta permite deslocar a geração diurna de energia para o horário de maior consumo, que é a noite. “Chega uma hora que, efetivamente, a geração diurna de energia solar começa a ser muito significativa e muito maior do que o consumo. E diferente de uma hidrelétrica, que é uma fonte despachada, a gente não armazena essa energia. Eu gero ela do sol e preciso mandar ela para algum lugar. Para isso existem alternativas viáveis, e a principal delas é o uso de baterias. Hoje, o sistema com baterias numa residência já é altamente atrativo, já tem viabilidade econômica. No comércio e na indústria, a gente também percebeu, do último semestre para cá, um crescimento gigantesco disso”, afirma a empresária.
“Todo esse investimento pode ser feito por pessoas físicas e jurídicas, e não pelo governo”, acrescenta.
De fato, como explica Aline, a energia solar possui um caráter mais democrático. Enquanto grandes hidrelétricas ou usinas movidas a combustíveis fósseis concentram poucos agentes econômicos, a energia solar tem muitos – entre as usinas e os consumidores, existe toda uma cadeia mercadológica. “Isso também é muito bonito para a alfabetização energética. Antes a gente só recebia a energia e acabou”, pondera a especialista.
No entanto, essa diversidade de atores também pode favorecer uma lógica de mercado excessivamente dominante no setor. Como o governador Leite anunciou na COP 30: “Já temos vocação para a transição energética. O que estamos fazendo agora é organizar, mapear e apresentar ao mundo esse potencial, com projetos licenciados e oportunidades concretas para que o investimento privado encontre no Rio Grande do Sul um ambiente de estabilidade, inovação e sustentabilidade”.
“O que considero preocupante é que os trabalhadores do setor de energias renováveis frequentemente recebem salários inferiores aos praticados em setores tradicionais da energia”, salienta Aline. “As pessoas se perderam ao permitir que a geração distribuída virasse um negócio. Ela veio como solução para as pessoas terem energia a um preço mais barato, e não para um ou outro ganhar dinheiro em cima disso”.
Na opinião da especialista, é necessário fortalecer mecanismos regulatórios para garantir maior equilíbrio no setor e evitar que essa lógica comprometa o acesso democrático à geração distribuída. “É importante que a expansão da geração distribuída ocorra de forma equilibrada e planejada, garantindo que consumidores que buscam produzir sua própria energia continuem tendo acesso a essa oportunidade, ao mesmo tempo em que se preserva a estabilidade e a sustentabilidade do sistema elétrico”, conclui.
Fonte: Bettina Gehm / Sul 21

