Chance de fenômeno ter alta intensidade se aproxima de 50%, segundo modelos climáticos

A região serrana do Rio de Janeiro pode servir de modelo para o Brasil se preparar para um El Niño intenso previsto a partir de junho de 2025. A avaliação é do meteorologista Carlos Nobre, em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, da Rádio Brasil de Fato. Nobre destaca o sistema de evacuação preventiva da região, desenvolvido após as chuvas de 11 e 12 de janeiro de 2011 — que mataram 918 pessoas —, como referência para proteger populações vulneráveis.
“Depois disso, as defesas civis de todas aquelas cidades foram se aprimorando, e em um evento de chuva muito forte no início de 2025, elas foram muito eficientes. Removeram um grande número de pessoas e criaram áreas para abrigá-las. Lugares seguros, fora das zonas de risco, com apoio, alimentação e suporte médico”, conta.
Nobre aponta que as cidades da região estão entre as que mais desenvolveram sistemas de proteção contra chuvas excessivas. “Nesse evento extremo de chuva no início de 2025, em Petrópolis, por exemplo, foram registradas apenas quatro mortes, e foram de uma família que a Defesa Civil visitou e não conseguiu convencer a sair. Fora esse caso, a Defesa Civil conseguiu retirar centenas de pessoas e levá-las para esses locais seguros. Esse é um grande desafio, mas o exemplo da região serrana do Rio é muito positivo. Precisamos dar escala a esse modelo”, diz.
“O ideal é que todos os governos — prefeituras, governos estaduais e governo federal — já tenham políticas para retirar as populações que estão em áreas de alto risco”, acrescenta.
Modelos climáticos dos Estados Unidos, da Europa, da China e do Japão indicam probabilidade de até 50% de o fenômeno atingir alta intensidade. O Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) reforça o alerta: nota técnica aponta possibilidade de El Niño forte ou muito forte entre 2026 e 2027, com potencial para aumentar o risco de eventos extremos no país.
A região mais ameaçada é o Sul. Centenas de milhares de moradores nos três estados vivem em áreas de grande risco, como encostas sujeitas a deslizamentos. Segundo Nobre, os deslizamentos foram a principal causa das 184 mortes registradas durante as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Há também risco para moradores na beira de rios e lagos sujeitos a inundações.
Amazônia e Nordeste também podem ser afetadas. Um El Niño forte pode provocar secas severas nessas regiões e ampliar o risco de incêndios. Nobre destacou que 95% dos incêndios florestais têm origem humana — a maioria, ações do crime organizado. “É muito perigoso termos um El Niño forte porque o crime organizado pode, de novo, colocar fogo na vegetação”, alertou.
Leia entrevista completa:
Brasil de Fato: É certa a presença do El Niño a partir de junho, passando pelos meses de julho e agosto deste ano. A dúvida que paira no ar é a intensidade do fenômeno. É isso mesmo, professor?
Carlos Nobre: É. A ciência de previsão de fenômenos meteorológicos acoplados ao oceano e à atmosfera vem melhorando muito, portanto já consegue prever os fenômenos El Niño.
Já previu que a temperatura na altura do Oceano Pacífico Centro-Leste iria aumentar, e ela já começou a aumentar — passou de meio grau mais quente. Quando essa temperatura no Pacífico Centro-Leste passa de 2 graus, é sempre um El Niño muito forte.
Todos os modelos climáticos dos Estados Unidos, da Europa, da China e do Japão estão indicando que existe, sim, uma probabilidade que já está chegando perto de 50% de o El Niño ser forte ou até muito forte.
Muito forte como foi em 2015 e 2016. Ele também foi forte em 2023 e 2024. Esse risco não pode ser eliminado. Pensar que esse vai ser um El Niño muito fraco e não vai causar grandes impactos climáticos é um erro. Todos os países do mundo, mas principalmente o nosso, têm que estar muito preparados, porque El Niños fortes levam a chuvas excessivas no sul do Brasil.
O El Niño de 2023 e 2024 causou muitas chuvas no Rio Grande do Sul.
Depois de maio de 2024, já era outro fenômeno meteorológico que ficou muito forte devido ao aquecimento global — as águas do Oceano Atlântico também estavam muito quentes. De qualquer modo, o El Niño sempre leva muitas chuvas para o Sul. Então, todo o sul do Brasil tem que estar já muito bem preparado.
Nos três estados, há centenas de milhares de moradores que vivem em áreas de grande risco diante das chuvas excessivas — encostas que podem deslizar com as enxurradas. Essa foi a principal causa das 184 mortes em 2024 no Rio Grande do Sul. Há também risco para quem reside na beira de rios e lagos que podem ser totalmente inundados. O Rio Grande do Sul já tem que proteger todas essas populações.
O Cemaden [Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais] faz excelentes previsões desses riscos e mapeia direitinho onde estão as populações vulneráveis a essas chuvas excessivas, conseguindo sempre lançar alertas de desastre com dias de antecedência.
Então, todos os estados do Sul têm que se preparar muito e prestar muita atenção nos alertas.
Brasil de Fato: Vamos falar um pouco sobre os efeitos do El Niño para as regiões Nordeste e Norte do país, pensando na Amazônia. Sabemos que as secas são severas e afetam o povo que vive nessa região, e que uma das consequências dessas secas — junto com o crime e as atividades ilegais — são os incêndios e as fumaças que podem tomar conta do país inteiro.
Esse El Niño forte pode levar a grandes secas em grande parte da Amazônia e em grande parte do Nordeste. O El Niño de 2023 e 2024, por exemplo, elevou o recorde de secas na Amazônia. Isso não foi só o El Niño, mas também o Oceano Atlântico, que estava muito quente ao norte do Equador.
Foi a seca mais forte do regime climático, com um super-recorde de incêndios. Com tanta seca, toda a vegetação ficou extremamente inflamável. Então, de novo, toda essa região da Amazônia e do Nordeste precisa se preparar.
Não houve uma mega seca no Nordeste nos anos de 2023 e 2024 — ela ficou concentrada na Amazônia —, mas é preciso se preparar, porque pode ocorrer.
Grande parte do Centro-Oeste e do Sudeste também deve se preparar para ondas de calor. Muitas frentes frias ficam presas lá no Sul do Brasil, causando muita chuva; esse ar frio não avança e há um excesso de ondas de calor.
Mas lembremos: a quase totalidade dos incêndios florestais — 95% — não foi natural, causada por descargas elétricas. Foram ações humanas, em sua maioria pelo crime organizado.
É muito perigoso termos um El Niño forte — ou muito forte — porque o crime organizado pode, de novo, fazer o que fez naqueles anos: colocar fogo na vegetação.
O Brasil como um todo tem que se proteger.
Brasil de Fato: O El Niño é um fenômeno natural, sempre aconteceu, mas o que estamos vendo hoje é que ele toma proporções cada vez mais inesperadas e causa efeitos devastadores, como aconteceu no Rio Grande do Sul. Professor, uma dúvida: se 2023 e 2024 não foram considerados um super El Niño — esse título ficou com 2015 —, por que o fenômeno mais recente causou toda essa devastação, enquanto em 2015 e 2016 as enchentes no Rio Grande do Sul não foram tão alarmantes?
Isso acontece porque o planeta está mais quente, e a temperatura dos oceanos também. O fenômeno existe há milhões de anos, mas agora, com as águas do Pacífico Equatorial mais quentes, quando se gera um El Niño, ele tende a ser mais forte.
A frequência de episódios intensos aumentou e vai aumentar ainda mais. Principalmente nestes últimos três anos, a temperatura média do planeta atingiu 1,5 grau acima da média histórica, e os oceanos tropicais acompanharam esse aquecimento.
Além disso, um fenômeno que induz chuvas no Sul sempre existiu com o El Niño, mas agora, com a alta temperatura do Oceano Atlântico na costa do sul da Argentina, do Uruguai e do sul do Brasil, a água está mais quente e evapora muito mais. Esse vapor d’água faz com que os fenômenos induzidos pelo El Niño sejam ainda mais intensos.
Os anos de 2023 a 2025 bateram todos os recordes. Isso explica, em parte, por que mesmo este El Niño não sendo o mais forte da história, os impactos foram muito, muito grandes.
Brasil de Fato: Professor, qual é a orientação para quem mora no sul do Brasil?
O ideal é que todos os governos — prefeituras, governos estaduais e governo federal — já tenham políticas para retirar grande parte da população que está em áreas de alto risco de inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos em encostas, removendo essas pessoas no momento em que o fenômeno está prestes a ocorrer.
Essas prefeituras e governos estaduais e federal têm que começar a pensar muito em para onde levar essas populações. Se pegarmos as cidades brasileiras que mais desenvolveram sistemas de proteção da população contra chuvas excessivas, chegamos à região serrana do Rio de Janeiro. Foi lá que ocorreu o maior desastre em número de mortes: em 11 e 12 de janeiro de 2011, foram 918 mortes causadas por chuvas excessivas, deslizamentos de encostas e inundações de rios. Depois disso, as defesas civis de todas aquelas cidades foram se aprimorando, e em um evento de chuva muito forte no início de 2025, elas foram muito eficientes. Removeram um grande número de pessoas e criaram áreas para abrigá-las — lugares seguros, fora das zonas de risco, com apoio, alimentação e suporte médico.
Nesse evento extremo de chuva no início de 2025, em Petrópolis, por exemplo, foram registradas apenas quatro mortes — e foram de uma família que a Defesa Civil visitou e não conseguiu convencer a sair. Fora esse caso, a Defesa Civil conseguiu retirar centenas de pessoas e levá-las para esses locais seguros.
Esse é um grande desafio, mas o exemplo da região serrana do Rio é muito positivo. Precisamos dar escala a esse modelo.
Brasil de Fato: Sabendo que o ápice do fenômeno pode acontecer entre setembro e novembro, podemos cogitar que as eleições precisem ser adiadas, dependendo de alguma situação que chegue à calamidade pública?
É uma boa pergunta. Se de fato acontecer um fenômeno com a intensidade de 2023-2024, afetando centenas de milhares de pessoas no Rio Grande do Sul, e se esses eventos coincidirem exatamente com o dia da eleição em outubro e com o segundo turno em novembro, isso vai trazer um desafio político muito grande. Vamos ver como o Congresso Nacional vai atuar.
Brasil de Fato: Se esse El Niño vier com essa intensidade justamente nesse período, poderíamos ter uma mobilização das pessoas para votar em candidatos realmente comprometidos com a causa ambiental e com a luta contra as mudanças climáticas. Nesse sentido, o negacionismo tenderia a não prevalecer nessas eleições?
Excelente pergunta. Estamos tendo, no mundo inteiro, nas democracias, um risco gigantesco. Nunca, como nos últimos dez anos, tantos políticos negacionistas foram eleitos em inúmeros países.
O presidente dos Estados Unidos, o da Argentina, em vários outros lugares. E não importa a ideologia política — de centro, direita ou esquerda. Não elejam políticos negacionistas.
Não nos esqueçamos: o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, quando foi eleito em 2018, ameaçou tirar o Brasil do Acordo de Paris — exatamente o que o presidente Trump fez no seu primeiro mandato e repetiu no segundo. Não devemos eleger políticos negacionistas.
Existe um discurso que contesta a eficiência de eventos como a COP30, que aconteceu no Brasil, mas mesmo que eles não consigam ser tão eficazes quanto prometem, desistir deles é a pior opção que temos.
Sem dúvida. O Brasil levou à COP30 propostas muito relevantes: dois mapas do caminho — o importantíssimo compromisso de zerar todo o desmatamento e a degradação de todos os biomas do mundo até 2030 e, a partir daí, acelerar a restauração dos biomas e a transição para o abandono dos combustíveis fósseis. Foram inovações muito importantes.
Se todos os países tivessem concordado, sem dúvida esta seria a mais importante das 30 COPs. Infelizmente, alguns países não concordaram com o ponto dos combustíveis fósseis, outros com o de zerar o desmatamento, mas temos que insistir.
A presidência da COP continua em exercício até a próxima COP, em novembro, na Turquia. O embaixador André Corrêa do Lago segue firme nesses dois mapas do caminho.
A pedido da presidência, lançamos um painel científico durante uma reunião sobre transição energética e abandono dos combustíveis fósseis na Colômbia, na cidade de Santa Marta. Esse painel científico também vai promover muitos estudos demonstrando a total viabilidade de fazer a transição energética e zerar rapidamente o uso de combustíveis fósseis.
Brasil de Fato: O Papa Leão 14 o convidou para ser membro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, um órgão da Igreja Católica que trata de temas como direitos humanos, justiça, paz e saúde, entre outros. Já houve alguma atividade desse órgão?
Por enquanto, recebi apenas o convite do Papa Leão 14, e me senti muito honrado. Sou o único brasileiro nesse grupo de 11 membros e também o único cientista ambiental e climático.
Aparentemente, fui convidado porque o Papa quer trazer para as discussões do Vaticano toda a dimensão do risco e da emergência climática, e a proteção que precisamos garantir a todos os biomas.
Houve uma declaração no Vaticano de que uma das razões da minha escolha foi minha participação no Sínodo da Amazônia do Papa Francisco, em outubro de 2019.
A primeira reunião presencial só acontecerá no final de novembro deste ano, no Vaticano, mas reuniões virtuais já devem começar antes.
Vamos dar toda a força de que o Papa Leão XIV precisa para trazer à tona todo o risco que o mundo enfrenta em todos os sentidos. Vimos a coragem e o brilhantismo do Papa quando ele se pronunciou contra a guerra dos Estados Unidos e de Israel sobre o Irã, que causou milhares de mortes.
Essas guerras fazem com que as emissões de gases de efeito estufa aumentem muito. Temos que acabar com todas as guerras do mundo. É muito positiva essa postura do Papa Leão 14.
Fonte: Brasil de Fato

