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Lanceirinhos Negros resgata protagonismo negro na história do Rio Grande do Sul

Projeto reúne crianças e jovens em acampamento cultural que reconta a Revolução Farroupilha a partir da memória dos Lanceiros Negros

Lanceirinhos Negros. (Foto: Luis Ferreira)

A história da Revolução Farroupilha ganha uma nova perspectiva pelas mãos de crianças e jovens negros em Porto Alegre. No próximo sábado (12) e domingo (13), a Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora recebe a sexta edição do projeto Lanceirinhos Negros, iniciativa do Instituto Sociocultural Afro-Sul/Odomode que propõe uma leitura antirracista de um dos principais episódios da história do Rio Grande do Sul.

A programação começa às 17h do sábado (12) e segue até o meio-dia de domingo (13), em um acampamento que reúne atividades de música, dança, artes visuais, teatro, culinária e contação de histórias. Durante a vivência, os participantes também recebem as indumentárias inspiradas nos Lanceiros Negros, grupo formado majoritariamente por homens negros escravizados que participaram de batalhas durante a Revolução Farroupilha.

Para além de apresentar uma versão diferente da história, o projeto busca fazer com que crianças negras reconheçam seus ancestrais como sujeitos de memória, resistência e protagonismo.

“Empoderar a infância negra no Rio Grande do Sul é construir uma base sólida para comunidades mais justas”, afirma a educadora e idealizadora do projeto, Edjana Deodoro. Segundo ela, a experiência já alcançou centenas de crianças e contribui para que elas se tornem “mais seguras, comunicativas e conscientes de seu papel na sociedade”.

Uma outra face da Revolução Farroupilha
A origem do Lanceirinhos Negros está em uma experiência familiar. Em 2019, Edjana Deodoro e sua mãe, a mestra da cultura afro-gaúcha Iara Deodoro, confeccionaram uma roupa de Lanceiro Negro para Caio, neto de Iara. A imagem do menino vestido como um dos guerreiros negros da Revolução Farroupilha ganhou repercussão nacional e despertou o interesse de outras famílias e instituições.

A partir daquela experiência, o Afro-Sul Odomode passou a confeccionar as indumentárias e a desenvolver atividades educativas sobre a participação negra na história gaúcha. Nasceram, então, as primeiras edições do Acampamento Lanceirinhos Negros, inicialmente com crianças de 4 a 12 anos vinculadas ao projeto Nossa Identidade e a quilombos urbanos de Porto Alegre.

A iniciativa questiona a narrativa tradicional construída em torno da Revolução Farroupilha, frequentemente marcada pela centralidade de personagens brancos e pela valorização do homem gaúcho como principal símbolo de luta e identidade regional. Nesse processo, a participação dos Lanceiros Negros e o episódio conhecido como Massacre ou Traição de Porongos permanecem como pontos de disputa na memória histórica do Estado.

Os Lanceiros Negros foram incorporados às tropas farroupilhas sob a promessa de liberdade e participaram de diferentes batalhas ao longo dos dez anos de conflito. Em novembro de 1844, na Batalha de Porongos, parte significativa do grupo foi surpreendida e morta enquanto estava desarmada, episódio que permanece cercado de controvérsias e diferentes interpretações históricas.

É justamente essa memória que o projeto procura levar para o universo infantil, não apenas como conteúdo histórico, mas como instrumento de fortalecimento da identidade e da autoestima.

Memória, cultura e identidade
Para o Afro-Sul Odomode, vestir as crianças como Lanceirinhos Negros é também uma forma de produzir outra relação com a história. A indumentária, a música, a dança, a culinária e as narrativas compartilhadas durante o acampamento funcionam como ferramentas para aproximar passado e presente e valorizar referências negras na construção da identidade gaúcha.

Neste ano, além de alunos de escolas públicas e crianças vinculadas ao projeto Nossa Identidade, participam jovens interessados em conhecer a experiência. A atividade ocorre na Sociedade Beneficente Cultural Floresta Aurora, na Lomba do Pinheiro, instituição histórica de referência para a comunidade negra de Porto Alegre e do país.

Ao transformar crianças em “lanceirinhos”, o projeto propõe que elas não sejam apenas espectadoras de uma história contada por outros, mas protagonistas de uma memória que também lhes pertence.

Fonte: Sul 21