Eleição deste domingo envolveu ainda denúncias de dificuldade para que eleitores acessassem o transporte público gratuito

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) com 51,76% dos votos válidos (64,1 milhões), contra 48,24% (59,7 milhões) de Flávio Bolsonaro (PL). Será seu quarto mandato na Presidência. A votação reverteu o resultado do primeiro turno, em que o senador do PL terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos (56,1 milhões de votos), contra 45,16% de Lula (53,9 milhões). A diferença de 1,87 pontos havia sido a menor desde 1989.
A virada de Lula aconteceu em um cenário de grande mobilização popular, especialmente pela redução da abstenção, que caiu de 21,08% para 18,98%. A vitória do petista também se dá após um dia inteiro de denúncias de dificuldades da população para acessar o transporte público em variadas cidades, especialmente na Bahia e em São Paulo.
Em Salvador, eleitores relataram demora e redução na circulação de ônibus. Segundo o governo estadual, fiscais encontraram veículos aptos a operar parados nas garagens. O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) determinou o restabelecimento imediato da frota integral e ordenou a prisão do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza.
Em São Paulo, o diretório estadual do PT denunciou ao TRE-SP que apenas 60% da frota de ônibus estava em operação. A Prefeitura reconheceu dificuldades para ampliar o serviço em curto prazo, citando a necessidade de reorganizar escalas de trabalho e rotinas previamente estabelecidas. Outras cidades como Petrópolis (RJ), Teresina (PI), Lauro de Freitas (BA), Recife (PE), Maceió (AL) e João Pessoa (PB) relataram problemas semelhantes.
Diante das restrições à circulação do transporte coletivo e da demora do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, em tomar uma decisão, o ministro Cristiano Zanin, do STF, determinou a prorrogação do horário de votação até as 19h, em todo o país. Apesar da decisão, grande parte das urnas já havia sido fechada, sem que fosse possível cumprir a medida a tempo.
Metalúrgico e dirigente sindical, Lula foi um dos fundadores do PT, em 1980, e construiu sua trajetória a partir das mobilizações dos trabalhadores do ABC paulista. Presidiu o país entre 2003 e 2010, foi preso em 2018 no âmbito da Operação Lava Jato e teve as condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021. Foi eleito novamente em 2022 e retornou ao Palácio do Planalto em janeiro de 2023.
Para a pesquisadora Patrícia Rocha, ouvida pelo Sul21, a mobilização da esquerda nas redes foi “uma injeção muito positiva”, e é preciso mantê-la para além do resultado.
O presidente reeleito terá que enfrentar uma composição do Congresso com maioria do PL e de partidos que apoiaram Flávio. Terá, novamente, o desafio de liderar um Brasil que parece sair da eleição ainda mais polarizado, com o fortalecimento do Sul e do Sudeste bolsonaristas e a cobrança de ajuste fiscal por parte de setores empresariais. O presidente promete, no entanto, reforçar a agenda de enfrentamento ao crime com a PEC da Segurança Pública e a proposta de tarifa zero.
A campanha: do tropeço do primeiro turno à “Agenda da Virada”
Na campanha deste ano, Lula associou sua candidatura à continuidade das políticas sociais e à defesa dos direitos dos trabalhadores. O fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho ganharam espaço no debate. No segundo turno, o presidente ampliou o Bolsa Família e insistiu em projetos parados no Congresso, como a PEC da Segurança Pública e a Tarifa Zero.
Depois da derrota no primeiro turno, a campanha também mudou de linguagem nas redes. O deputado federal André Janones (Rede-MG), a quem o presidente chama de “general”, coordena o canal “Exército do Lula”, que ultrapassou os 10 milhões de membros. A estratégia da campanha também incluiu a convocação de jovens lideranças do PT para consultoria em redes sociais e uma ação coordenada na manhã de 17 de outubro, em que eleitores publicaram fotos com a camisa da Seleção ou as cores do Brasil, na tentativa de retomar os símbolos nacionais pelo campo progressista.
A cientista política Patrícia Rocha, do Núcleo de Pesquisa sobre a América Latina (Nupesal), avaliou, em entrevista ao Sul21, que a esquerda se apropriou das plataformas “um pouco tarde” e que o desafio é manter a mobilização depois da eleição.
O mapa do voto: o que o primeiro turno revelou
O primeiro turno mostrou um presidente com menos votos do que em 2022. Lula teve cerca de 3,3 milhões de votos a menos do que no primeiro turno daquela eleição, enquanto Flávio somou 5 milhões a mais que seu pai, Jair Bolsonaro. Levantamento do cientista político Marco Antonio Faganello, da FGV/CEPESP, publicado pelo Sul21 em parceria com a Agência Pública, mostra que a perda foi maior nos municípios pequenos e naqueles com forte presença do agro: onde a atividade agropecuária responde por mais de 50% do PIB, Lula perdeu 8% dos votos em relação a 2022.
Nos municípios com até 5 mil habitantes, a perda foi de cerca de 7%; nos com mais de 500 mil, de 1%. O petista perdeu mais votos em cidades de Goiás, Tocantins e Rio Grande do Sul, e menos nas capitais. A abstenção, recorde em números absolutos, não explica a queda, segundo o pesquisador.
O Nordeste, reduto tradicional do presidente, foi onde Flávio mais avançou: a direita cresceu nos nove estados da região, de 27% para 30,9% dos votos válidos.
Porto Alegre foi uma das capitais que deu vitória a Lula
O Estado foi um dos territórios mais difíceis para o petista. No primeiro turno, Lula obteve 35,73% dos votos válidos no RS, contra 55,64% de Flávio, que venceu em 455 dos 497 municípios. Porto Alegre foi exceção: o presidente liderou, com 48,57% contra 41,86%, e a capital gaúcha foi uma das cinco capitais do país em que Flávio perdeu.
A campanha petista tratou Porto Alegre como estratégica. Em 19 de outubro, Lula reuniu milhares de apoiadores em caminhada que saiu do Largo dos Açorianos e seguiu pela Avenida Borges de Medeiros até o Mercado Público. Foi sua segunda passagem pela cidade na campanha (a primeira foi em 11 de setembro, antes do primeiro turno).
O percurso, que leva cerca de 20 minutos a pé, durou quase duas horas. O presidente chegou em carro aberto e de baixa altura, ao lado dos ex-governadores Olívio Dutra e Tarso Genro e do senador Paulo Paim. O ato reuniu lideranças como Edegar Pretto, coordenador da campanha no Estado, Paulo Pimenta, Manuela d’Ávila e as deputadas Fernanda Melchionna (PSOL), Denise Pessôa (PT) e Daiana Santos (PCdoB). Os cânticos incluíram “Ele não. O filho também não”. A mobilização integrou a chamada “Agenda da Virada”, com atos até sábado (24). Edegar Pretto foi vice na chapa de Juliana Brizola, derrotada por Luciano Zucco (PL) na disputa pelo governo estadual.
Neste domingo, Lula recuperou boa parte dos votos no Estado, conquistando 42,16% contra 57,84% de Flávio Bolsonaro. Em Porto Alegre, Lula conquistou 55,84% dos votos neste domingo. Flávio obteve 44,16%.
Fonte: Sul 21

