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Se eu fosse um médico cubano

Se existem jovens médicos brasileiros que não querem participar desse programa, penso que são uns grandessíssimos bobões.

 

Se eu ficasse em Cuba, ganharia muito menos, mas muito menos mesmo. (Reuters)

Por Afonso Barroso*

Ah, como queria eu ser um médico cubano! Entraria no programa Mais Médicos do Brasil e iria trabalhar numa cidadezinha do fim do mundo, num rincão brasileiro. Lá eu me tornaria o médico da família de gente humilde, simples e hospitaleira.

Iria conhecer pessoas boas, amigas, que me ofereceriam um cafezinho ao chegar à casa delas para uma consulta. Eu disse cafezinho? Que nada! Café reforçado com broa de fubá e outras quitandas feitas em casa. Me ofereceriam até almoço ou jantar, um feijão-com-arroz temperadinho, com ovo frito e almôndegas, muita verdura e muita gratidão pelo meu trabalho.

Queria, sim, viver numa cidadezinha bem mineira ou bem nordestina, onde o destacamento policial é de apenas um cabo e três soldados. Sei que ali não tem violência, ninguém mata ninguém, se tiver ladrão é só de galinha, cada um cuida da própria vida. Às vezes cuida também da vida alheia, é verdade, mas sempre com uma graça e malícia inocente que nenhum outro povo tem.

Muito de vez em quando acontece numa cidadezinha como esta a explosão do caixa eletrônico de uma das duas agências bancárias, mas os bancos têm seguro e logo-logo os caixas estão de novo funcionando. Os bancos sabem que eu preciso sacar meu dinheirinho todo mês para pagar as contas. E seriam poucas as contas. Uns trezentos de aluguel, mais seiscentos pra comer no único self-service da cidade, ou então só oitocentos pra morar numa pensão.

Como sou solteiro, não seria difícil arranjar uma namoradinha nessa cidade. Filha da terra, que iria gostar da minha cara meio achatada, da minha cor mais morena do que clara e, principalmente, do meu sotaque, porque eu já estaria falando um portunhol caprichado.

Seria um lugarzinho longe de tudo, mas perto de tudo também, porque tem sinal de celular, tem internet, eu poderia navegar no meu computador e até falar com os meus parentes em Cuba pra informar que estou bem, que aqui é muito gostoso de viver.

Se existem jovens médicos brasileiros que não querem participar desse programa, penso que são uns grandessíssimos bobões. Quer coisa melhor do que viver numa cidadezinha como essa? A gente pode muito bem tirar umas férias todo ano e viajar, ir à praia ou aos shoppings da capital. E tem mais: eles, os brasileiros, ganhariam muito mais do que eu, porque a maior parte do que o governo de Cuba recebe vai é para ele mesmo, o governo. Já os médicos brasileiros receberiam integralmente. Seriam muito bem pagos.

Eu não me importaria de ficar só com um terço ou até uma parte menor do que o Brasil paga ao meu governo. Se eu ficasse em Cuba, ganharia muito menos, mas muito menos mesmo. E lá não tem cidadezinhas que ofereçam tanta coisa boa como as brasileiras. Além disso, lá eu não acharia uma namorada bonita como as daqui.

Sim, eu queria ser um médico cubano e trabalhar no Brasil! Mesmo adorando o meu país, o regime do meu país, a pobreza do meu país, os boleros e mambos do meu país, eu queria mesmo era ficar por aqui.

Ah, que bom seria se eu fosse um jovem médico cubano!

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor.

 

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