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Na novela pode, né?

Por Fernando Fabbrini*

A grande fofoca da semana foi o caso envolvendo o assédio perpetrado por um ator contra uma das moças da equipe técnica da emissora. No mesmo dia – puxa, como essas notícias se espalham! – o acontecido pipocou nas redes, nos sites de mexericos e nas rodas de papo nos bares.

Na terça feira, a emissora noticiou – austera, contrita e pomposa – que o ator tinha sido afastado de seu elenco por prazo indeterminado. Ato contínuo, talvez para eximir-se de qualquer responsabilidade, botou no ar o pedido de desculpas escrito pelo acusado.

Até aí, tudo bem, assunto resolvido. Ou não? Revendo a notícia, a posição da emissora e a mensagem do ator, vários pensamentos me ocorreram enquanto fazia uma retrospectiva do que tem sido a TV no Brasil.

Em primeiro lugar, chamou-me a atenção a espetacularização do evento. Ora: aconteceu dentro do próprio ambiente da TV, o que esperar dela? O ator é um galã afamado que sempre interpretou papéis de machão, de bruto e dominador. E o roteiro é perfeito para um folhetim: homem bonito, ator famoso, poderoso, assedia costureira, moça modesta, buscando à força seu afeto e algo mais. A mulher, constrangida, segura a onda enquanto possível, talvez com medo de expor-se ou de perder o emprego. Depois, denuncia, procura a polícia, solta os cachorros – no que fez muito bem. Vingou-se. E aí temos mais uma novela.

O pedido público de desculpas – talvez escrito por um assessor de imagem – é de uma pieguice primorosa. O ator atribui seus impulsos à cultura machista de uma geração inteira. Que falácia! Não só no Brasil como em todo o mundo, as mulheres vêm sofrendo com o desrespeito de homens há séculos – fato que prova, definitivamente, que a estupidez não tem idade, faixa etária, nível cultural, etnia ou nacionalidade específica.

Enfim: o ator tomou seu caso por uma generalidade, numa tentativa estranha de atenuar a culpa, classificando-a na categoria de problema ou fenômeno coletivo. Sutilmente, buscou transformar seu mea culpa em culpa nostra. (Opa! Não me inclua nesse grupo. Com certeza, nem todo sujeito de nossa idade tem o hábito de constranger mulheres como ele fez). Imagine se alguém cometesse um homicídio e explicasse, assim, seu gesto ao juiz:

– Ah! Doutor! Fiz isso porque sou fruto de uma geração que agride e mata seus semelhantes quando contrariada!

Fiquei particularmente incomodado com um pequeno – porém fundamental – detalhe nessa história. A TV brasileira – especialmente aquela envolvida no episódio – vem há anos recheando suas produções com valores e comportamentos não muito recomendáveis. Transmite centenas de novelas e programas onde assédio, violência contra a mulher, leviandade, sedução, assassinatos, falcatruas, traições, roubos e demais tramas diabólicas são arroz-com-feijão.

Os roteiristas encarregados dessas séries – que se arrastam há anos e hipnotizam os pobres telespectadores desavisados – adoram histórias escabrosas. O que vemos na telinha é de causar náuseas. Mas dá IBOPE, ora bolas. E, como se não bastassem as novelas, a mesma emissora repete, ano após ano, o que ela considera um de seus grandes sucessos – o reality show do grande irmão. Nas tais casas, homens e mulheres exibicionistas e excitados full time se seduzem mutuamente, competem com as piores armas, montam intrigas, delatam, humilham, transam escondido sob o edredom – tudo por dinheiro.

Não seria o caldo de cultura ideal para o florescimento de atitudes deploráveis? E sob o aval dos patrocinadores e da direção da emissora? No ar, um cheirinho inconfundível de hipocrisia queimando tela quente.  

Ah, sim, entendi. Na novela, pode. No reality show também. Resumindo: naquilo que a TV despeja para seu público e fatura alto, tudo bem. Vale toda e qualquer sacanagem – com perdão da palavra. Agora: quando um caso inesperado ameaça a imagem da emissora e a expõe ao fogo da opinião pública, sobretudo à justa revolta das mulheres – a TV, por um milagre, torna-se um exemplo de pudor, de ética e de austeridade.

Alguém acredita nisso? Não se iludam: é apenas mais um roteiro fantasioso e preparado às pressas para iludir incautos. Aguardem o próximo capítulo. 

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

Dom Total/