Liberdade não significa fazer o que se quer, quando se quer
Por Felipe Magalhães Francisco*
O Apóstolo Paulo é enfático em defender a liberdade, dada a nós pela Morte-Ressurreição de Cristo. O versículo que dá título a este artigo é da Carta aos Gálatas, no capítulo quinto, versículo primeiro. Essa Carta fala muito da novidade cristã, de liberdade, em contraponto ao peso da Lei que, mal interpretada, servira de jugo para muitos judeus e seduzira alguns cristãos. No cristianismo nascente, a tentação do rigorismo dessa Lei esteve sempre presente. E é justamente Paulo que com essa situação mais dialoga, apresentando-nos o lugar da nova vida dada aos cristãos e cristãs, em Cristo: uma vida de liberdade, pautada pelo amor-responsabilidade.
Liberdade não significa fazer o que se quer, quando se quer. Somos constituídos, humanamente, pela liberdade, que se revela verdadeiro dom. Liberdade pressupõe responsabilidade: é no convívio com os outros que nossa liberdade e a dos outros é exercida. Esse é um caráter humanizador da liberdade: ela se realiza nas relações que estabelecemos. Para a compreensão cristã, tal liberdade chega ao máximo de sua realização, por ocasião da Ressurreição de Jesus: a vida plena que nos alcança, revelando-nos a real possibilidade de sermos homens e mulheres novos, humanizando nossa humanidade pelo amor-responsabilidade, fruto do bom exercício de nossa liberdade.
A tentação do legalismo sempre permanece, no entanto. O legalismo está ligado ao controle e ao exercício de poder da parte de alguns, sobretudo no que diz respeito às questões religiosas. Manipula-se a imensa maioria, a partir de uma imagem de deus que não revela o Deus de Jesus Cristo. Nutre-se, com isso, uma religiosidade pautada no medo e, cada vez mais, distanciada do Reino de Deus, lugar pleno da liberdade para a realização de nossa humanidade, no próprio coração de Pai. É preciso sempre aprender com o Espírito de Jesus o valor da liberdade, para a realização de nossa missão de anunciadores e anunciadoras do Reino. Nesse sentido, em nome da verdadeira liberdade cristã, faz-se necessário sempre um caráter profético, dos cristãos e cristãs, frente às tentativas de controle por parte dos líderes religiosos, proprietários de uma religião que escraviza e aliena.
É o caso de voltarmos nossa atenção, com a profecia própria do Evangelho, para a Bancada da Bíblia, composta por evangélicos e católicos, igualmente fundamentalistas, no Congresso Nacional. Essa é verdadeiramente uma desgraça que assola nosso país, em nome de um falso deus, que em nada nos aproxima de Jesus, o libertador de nossa liberdade. Tais membros da denominada Bancada da Bíblia representam o que há de pior, nos que usam da fé das pessoas, para alcançarem os próprios desejos, mais que sombrios, de poder, de riqueza e de dominação. Responsáveis que somos, por continuar no mundo a missão de Jesus, indo aos lugares aos quais ele mesmo devia ir (cf. Lc 10,1), propagando a verdadeira liberdade nos trazida pelo Evangelho, que não aprisiona, mas que gera vida.
Nossos esforços proféticos, em nome da liberdade, precisam discernir, à luz do Evangelho e da vida mesma de Jesus, a veemente negação ao projeto do Senador e pastor fundamentalista Magno Malta (PR-ES), amplamente divulgado como “Programa Escola sem Partido” (PLS 193/2016). Trata-se de uma real tentativa obscurantista de privar, nas escolas, o pensamento crítico e a liberdade ao livre pensar, bem como minar, de vez, todas as tentativas de se propor uma educação para o respeito e para a diversidade. Dizer não a isso significa fazer jus à liberdade que o próprio Cristo nos alcançou e dar um passo a mais, rumo à efetivação – ainda tão distante, mas possível – de um Estado laico e de garantias para todos. Que nosso compromisso com a Verdade que liberta, Jesus Cristo, ajude-nos na tarefa de humanizar nossa humanidade, dizendo constantes “nãos” às tentativas dos que se dizem cristãos, de oprimir e subjugar os pobres do Senhor, em nome de uma fé infantil e que nada revela o rosto de Jesus.
*Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Coordena, ainda, a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras.

