Mudar radicalmente a racionalidade econômica; aproximar as preocupações da ciência econômica para a imprescindível necessidade de libertar o homem; criar um novo ambiente propício para a vida de todos os seres humanos, sem a divisão costumeira que privilegia alguns em detrimento de muitos e reconhecer, definitivamente, a existência de limites ecológicos ao crescimento físico da economia.
São esses alguns pontos centrais da discussão em torno do que se convenciona chamar de socialismo ecológico; ou, como alguns preferem dizer, de eco-socialismo.
Socialismo, sim, no sentido de enaltecer os laços sociais e políticos que respeitam, primeiramente, a Mãe Terra. Socialismo no sentido de fazer a crítica ao “deus-capitalismo” que se afirma consoante à ideia básica de que o mercado, altar sagrado do dinheiro, pode conquistar tudo e todos.
O “socialismo verde” se põe em posição contrária a essa premissa, pois entende que o mercado é incapaz de resolver tudo e que o mundo não pode viver apenas de consumo e mais consumo, como o “deus-capitalismo” sempre quis que assim fosse e quer que assim seja ad eternum.
A contradição entre capital e natureza deve ser repensada à luz de uma nova perspectiva que inclua, essencial e preferencialmente, o ser humano “dentro” do objeto de análise dos modelos econômicos, partindo da premissa de que o mundo não é um “objeto”, ou uma simples e qualquer “mercadoria” pronta para ser digerida por bocas ávidas, vestidas com a roupagem do consumismo.
Se o consumo consome o consumidor, o socialismo ecológico, em tempo hábil, vem para refutar o deus-mercado estabelecendo novas regras no jogo econômico, defendendo, antes, a base de sustentação da vida, condenando, para tanto, o consumo artificialmente induzido pela publicidade que faz a sobrevivência do próprio deus-mercado.
Esse socialismo ecológico, defendido pelo economista mexicano Enrique Leff, pelo sociólogo Michael Lowy, por Victor Wallis, John Bellamy Foster, Jean-Marie Harribey, Raymond Willians, David Pepper e tantos outros nomes de destaque, aponta para a necessidade de incutir no imaginário coletivo a noção de que, quando o capital se constrói sob as ruínas da natureza, a vida de todos entra em perigo.
Talvez seja por isso que Enrique Leff, acertadamente, pontua que “a economia está gerando a morte entrópica do mundo”. Essa “morte” é cada vez mais explícita quando se percebe que a única preocupação dos “Senhores da Economia Mundial” está em salvar o grande capital, não em salvar o planeta e as vidas humana e não-humana.
Por sinal, melhor seria dizer em salvar a vida, pois o planeta saberá viver sem nós, uma vez que não depende de nossa presença para sobreviver. Pelo lado da economia voraz e consumista, base do deus-mercado, que a tudo destrói em nome de atender aos ditames mercadológicos, sabe-se que a ordem da macroeconomia, comandada por esses “Senhores”, é uma só: fazer crescer e crescer e crescer cada vez mais a economia mundial.
Do outro lado, dos que priorizam e respeitam às leis da natureza e da vida, o recado da lógica ecológica também é uno: lutar pela possibilidade de assegurar a sobrevivência de nossa espécie e de toda a rica biodiversidade.
Conquanto, o fato é que já não é mais possível aceitar a prédica mercadológica que faz com que uma minoria prospere enquanto a maioria vivencia o drama da exclusão, numa sociedade globalizada que parece não ser de outra natureza além daquela consumista, insuflada pela propaganda, financiada pelo capital, destruidora da natureza.
Os que defendem o modelo ora vigente que faz a economia crescer fisicamente sem limites, para assim promover a “felicidade geral”, como se isso fosse exequível, e como se não houvesse nenhum tipo de diferença socioeconômica, se equivocam completamente ao ignorar que esse “crescimento” é dependente das leis da natureza, e a natureza, em toda sua amplitude, não é – e nunca será – capaz de dar conta dessa política de crescimento.
Nesse sentido, a economia tradicional parece ser míope em relação à necessidade de se regular a produção. Para o bem daqueles que se encontram ao lado da ecologia, portanto contra essa economia destruidora, cabe atentar aos preceitos desse novo pensamento.
Consoante a isso, vale mencionar em detalhes a ideia de “eco-socialismo”.
O eco-socialismo
Afinal, o que é o ecossocialismo? Para Lowy, (…) “trata-se de uma corrente de pensamento e de ação ecológica que toma para si as conquistas fundamentais do socialismo – ao mesmo tempo livrando-se de suas escórias produtivistas”.
Já o sociólogo John Bellamy Foster define eco-socialismo como sendo “a regulação racional da produção, respeitando a relação metabólica entre os sistemas sociais e os sistemas naturais, de forma a garantir a satisfação das necessidades comuns das gerações presentes e futuras”.
Portanto, a definição dada por Foster não se encontra distante da recomendação feita pelo Relatório Brundtland (1987). Para melhor ilustrar essa questão, três aspectos realçam o posicionamento de Foster. São eles:
* O reconhecimento dos limites ao crescimento e a ruptura com a lógica produtivista que associa o aumento do bem-estar a um aumento da produção. Colocar o prefixo eco na palavra socialismo implica conciliar a igualdade intra-geracional com a igualdade inter-geracional;
* A reformulação do sistema produtivo de forma a torná-lo dependente unicamente do uso de recursos renováveis, articulando com o princípio anterior. Cumpre ressaltar que a sustentabilidade exige um uso dos recursos renováveis a um ritmo que garanta a sua renovação;
* O uso social da natureza, privilegiando a gestão comunitária de recursos comuns.
Sendo assim, para finalizarmos, o eco-socialismo, o socialismo ecológico está longe de ser apenas modismo ou mera retórica romântica. Ademais, são conceitos que ganham contornos relevantes num mundo que vive intensamente a mais grave crise ecológica de toda a história.
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental prof.marcuseduardo@bol.com.br

