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‘Eu torço por quem torce pela seleção brasileira’, afirma Luiz Antônio Simas sobre Copa 2026

Historiador diz que já não se comove com a seleção, porém se envolve pela sociabilidade promovida durante o campeonato

Luiz Antonio Simas | Crédito: Arquivo pessoal

A Copa do Mundo começa nesta quinta-feira (11) e o primeiro jogo do Brasil acontece no próximo sábado (13). Serão 104 jogos espalhados pelos estádios da “sede tripla”, formada por México, Estados Unidos e Canadá. E antes mesmo de começar, muita água já rolou debaixo da ponte. Teve árbitro deportado, atletas e profissionais de imprensa vítimas de racismo na chegada aos Estados Unidos, proibição de que a delegação do Irã pernoitasse em território estadunidense e veto ao uniforme do Haiti.

Além disso, a seleção brasileira de Carlo Ancellotti chega para a competição com alguns questionamentos. Um dos principais envolve a figura polêmica do jogador Neymar, astro da molecada, mas bastante contestado, já que foi convocado mesmo lesionado.

Ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, o professor e escritor Luiz Antônio Simas, de saída, questiona a própria função e os objetivos da Fifa, organizadora da Copa do Mundo. “A Fifa não está interessada na cultura do futebol. Vamos partir desse princípio. Porque eu vejo as pessoas indignadas: ‘Ah, mas a Fifa não tem interesse na cultura do futebol’. A Fifa vê o futebol como um produto. O futebol é um negócio para a Fifa. Nunca se ganhou tanto dinheiro quanto nessa Copa. E desde o João Havelange, foi se aprofundando. Então é um negócio. O futebol como cultura para a Fifa só interessa se alguns elementos da cultura do futebol acabarem dando à Fifa a possibilidade de transformar aquilo, de certa forma, em mercadoria. Então, é um grande negócio. Eu até costumo dizer o seguinte: o evento da cultura, que era uma Copa do Mundo, foi engolido pela cultura do evento, não tenha dúvida. Ao mesmo tempo, a gente tem uma tendência de, digamos, romantizar o passado e, a rigor, a história das Copas do Mundo sempre foi muito marcada pela conjuntura”, explica.

Simas brinca que perdeu as esperanças com a seleção depois da frustração de 1982. E destaca que, diante dessa tomada de consciência do futebol como negócio para as grandes empresas, ele considera mais interessante o que acontece fora das quatro linhas e se debruça para observar a sociabilidade promovida em tempos de Copa. “Eu sou um cara muito interessado na construção de sociabilidade urbana. Eu sei que vai ter aquele churrasco de calçada, a cerveja vai estar gelada, o botequim ainda vai insistir em fazer bolão. Tem aquela coisa da Copa, aquela sociabilidade rueira, que é o que me interessa mais na Copa do Mundo”, conta.

“A Copa é uma porcaria, o Trump é um sociopata, não devia estar acontecendo nos Estados Unidos e tal. Mas tem uma criançada que está construindo as suas sociabilidades em colégio, batendo bafo na figurinha. Então, a minha relação com a seleção brasileira hoje é muito mais uma ‘batendo bafo na figurinha’. É muito mais uma relação vinculada a quem torce pela seleção do que exatamente à seleção. A seleção não me comove há muito tempo. Hoje, eu acho que eu tenho um discernimento que em 1982 eu não tinha, que é a seleção da Confederação Brasileira de Futebol. É normal que eu confundisse a seleção com a própria ideia da nacionalidade. O Brasil estava vivendo um momento interessante, processo de abertura política, ia ter eleição direta para governos estaduais, o clima no país era muito bom. Eu diria que eu torço mais hoje por quem torce pela seleção brasileira. E eu quero que o Brasil avance, porque vai ter mais churrasco na calçada, mais gente vai pro botequim…”, brinca.

Luiz Antonio Simas faz uma analogia com a forma com que as pessoas se relacionam atualmente. “Eu acredito que o futebol seja um sintoma da sociedade, e a sociedade também é construída pelo futebol. Isso aí acontece no Brasil. Eu acho que fala muito sobre os nossos tempos, em que perceber a alteridade com o mínimo de compreensão já foi para o ralo há muito tempo.”

Simas também discorre um pouco sobre os aspectos técnicos do futebol no Brasil e mundo afora. “O futebol brasileiro perdeu muito do seu DNA. E o que eu quero dizer com isso? O futebol, como a gente entende, é um jogo que se estrutura a partir da Inglaterra. E o futebol inglês, nas primeiras décadas, era um futebol que se caracterizava muito pela ideia da bola lançada. Então, a bola alta, aquela coisa toda. Claro que isso foi se modificando com o tempo, mas era a escola inglesa. A escola escocesa, uma escola de troca de passe. Então você vai ver coisas de 1905, 1900… Os ingleses gostam de jogar a bola para a área, de troca de passe. A nossa escola é uma escola vinculada à ideia da ocupação de um espaço vazio com o drible. Esse é o nosso modo de jogar bola. E mais do que isso, o Brasil formou gerações de jogadores a partir de experiências que estão fora do gramado. É o futebol de rua, é o futebol de praia, é o futebol em que você jogava numa ladeira, o futebol em que a primeira relação que a criança tinha com a bola era uma relação lúdica. À medida que você vai perdendo, inclusive, as sociabilidades na rua, esse futebol vai sendo levado, basicamente, para dentro dos clubes, para as escolinhas, para as peneiras e tal. Isso é muito complicado”, avalia.

Confira a entrevista completa no link abaixo:

Fonte: Brasil de Fato