Especialistas explicam como a camisa da Seleção ganhou significado político para parte dos brasileiros

Durante décadas, bastava a Copa do Mundo se aproximar para que o verde e o amarelo tomassem conta das ruas. Casas eram decoradas, bandeiras apareciam nas janelas e vestir a camisa da Seleção Brasileira era quase um ritual entre os torcedores.
Nos últimos anos, porém, esse cenário mudou. O uniforme, que durante gerações representou apenas o futebol, passou a ser associado também à política, fazendo com que parte dos brasileiros deixasse de usá-lo por receio de ser identificada com determinado posicionamento ideológico.
O assunto voltou ao centro do debate nesta semana após o ator Selton Mello publicar nas redes sociais que perdeu o interesse pela Copa do Mundo. Ao afirmar que “não há mais amor pela camisa”, o artista reacendeu uma discussão que já ultrapassa o universo esportivo: afinal, de quem é a camisa da Seleção Brasileira?
Quando a camisa deixou de ser apenas futebol
Embora a associação entre a camisa da Seleção e a política tenha se fortalecido nos últimos anos, o processo começou antes.
Em 2015, durante as manifestações organizadas pelo movimento Vem Pra Rua em defesa do impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), o uniforme amarelo passou a aparecer com frequência nas ruas como símbolo das mobilizações.
A partir de 2018, durante a campanha e, posteriormente, o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), essa identificação ganhou força. Além da presença constante das cores nacionais em manifestações e eventos oficiais, programas federais também passaram por mudanças de nome, como a substituição do Minha Casa Minha Vida pelo Casa Verde e Amarela e do Bolsa Família pelo Auxílio Brasil.
Para o presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de Alagoas (ACEA), Adaelson Vilela, foi justamente nesse período que a camisa passou a ganhar um novo significado para parte da população. “A camisa da Seleção Brasileira passou a ganhar uma outra conotação política especificamente a partir de 2018. Durante todo o mandato, o verde e amarelo passou a ser usado como referência de patriotismo”, avaliou.
Na percepção do cronista, essa associação permanece até hoje. “Parte da população deixou de usar a camisa justamente por causa dessa conotação. Por outro lado, há quem faça questão de vesti-la para demonstrar sua posição política”, observou.
Um símbolo que passou a ser estudado
A transformação da camisa da Seleção Brasileira já ultrapassou o debate político e também passou a ser analisada pela academia.
O estudo “Becoming Brazilian: The Making of National Identity through Football”, publicado em 2017, mostra como o futebol e a Seleção Brasileira foram fundamentais para a construção da identidade nacional ao longo do século XX, consolidando a camisa amarela como um símbolo de pertencimento e coesão entre os brasileiros.
Pesquisas e análises mais recentes apontam que esse símbolo passou por uma ressignificação nos últimos anos, tornando-se também um campo de disputa política entre diferentes grupos ideológicos.
Durante as eleições de 2022, a própria imprensa internacional registrou que muitos brasileiros evitavam vestir a camisa da Seleção por receio de serem associados ao bolsonarismo. O uniforme deixou de comunicar apenas paixão pelo futebol e passou, para parte da população, a carregar também uma leitura política.
Para o sociólogo Rodrigo Breato, do Grupo Reinserir Psicologia, esse processo ainda deve levar tempo para ser revertido. Em entrevista à Band, ele explicou que a resistência de parte da população é compreensível, mas que a desassociação entre as cores nacionais e a política acontecerá de forma gradual: “O patriotismo não é uma representação de uma parte da sociedade. A Copa pode amenizar a situação, mas não soluciona a polarização extrema.”
O olhar da Psicologia
Na avaliação da estudante do último período de Psicologia, Bianca Elvira, o fenômeno pode ser explicado pelo sentimento de pertencimento.
Segundo ela, quando um símbolo coletivo passa a representar apenas um grupo, pessoas que não se identificam com esse grupo tendem a se afastar dele.
“Existe uma confusão de identificação. As vestimentas e as cores do Brasil foram usadas em um movimento político com o qual muita gente não se identifica. Então é compreensível que algumas pessoas deixem de usar esses símbolos”, explicou.
Ao mesmo tempo, Bianca observa que vestir a camisa também pode representar um movimento de resgate da identidade nacional. “Quem continua usando essas cores também está dizendo que o Brasil pertence a todos”, ressaltou.
Ela explica que esse processo está ligado ao conceito de alienação, quando um símbolo criado para representar toda uma coletividade passa a perder seu significado original.
“A maior complexidade está quando a gente esquece por que aquele símbolo foi criado. A camisa representa o povo. Quando isso se perde, ela deixa de cumprir esse papel”, refletiu.
Para a estudante, o esporte deveria seguir o caminho contrário. “Os esportes unem as pessoas. Acho triste quando símbolos esportivos acabam sendo usados para dividir”, concluiu.
O reflexo dentro dos estádios
Para Adaelson Vilela, a mudança também pode ser percebida nas arquibancadas alagoanas.
Segundo ele, é cada vez mais comum encontrar pessoas usando a camisa da Seleção em partidas de clubes, mesmo quando o Brasil sequer está em campo. “Hoje existe uma grande presença da camisa da Seleção em jogos de CSA, CRB e do Campeonato Alagoano”, observou.
Na avaliação do cronista, essa mudança revela que o uniforme passou a comunicar outros significados além da paixão pelo futebol.
“Antes as pessoas usavam a camisa principalmente na Copa do Mundo ou na Copa América. Hoje ela também é utilizada como forma de demonstrar um posicionamento político”, pontuou.
Apesar disso, ele defende que o uniforme volte a representar todos os brasileiros. “É preciso separar as coisas. A camisa representa a nossa nação nas competições internacionais. Misturar esse símbolo com política acaba gerando conflitos”, defendeu.
A polêmica da camisa vermelha
Se ainda havia dúvidas de que a camisa da Seleção havia se tornado parte da disputa política brasileira, elas praticamente desapareceram entre 2024 e 2025.
Quando a imprensa esportiva noticiou que o segundo uniforme da Seleção para a Copa do Mundo de 2026 poderia ser vermelho, a repercussão foi imediata. O debate rapidamente saiu das páginas esportivas e ganhou espaço nas redes sociais, no Congresso Nacional e até nos editoriais dos principais jornais do país.
Em editorial, O Globo afirmou que a discussão evidenciava “a polarização em torno do uniforme do Brasil” e observou que “não era preciso muita sofisticação para prever o efeito explosivo da mudança num país polarizado”.
A reação política também foi imediata. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que “a camisa da Seleção sempre foi um símbolo da nossa identidade nacional, do nosso orgulho e das nossas raízes. Sempre foi verde e amarela”.
A repercussão foi tão grande que o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) chegou a protocolar um projeto de lei para impedir o lançamento oficial do uniforme alternativo. No fim, a camisa reserva permaneceu azul. Ainda assim, o episódio reforçou que, no Brasil de hoje, discutir as cores da Seleção já não significa falar apenas de futebol.
Nesta semana, milhões de brasileiros voltarão a vestir verde e amarelo para acompanhar mais uma Copa do Mundo. Para alguns, a camisa continua sendo apenas um símbolo de paixão pelo futebol. Para outros, ela ainda carrega significados políticos construídos ao longo dos últimos anos.
Independentemente do resultado dentro de campo, a discussão permanece aberta: será que um dos maiores símbolos do esporte brasileiro conseguirá voltar a representar, sem divisões, todos os brasileiros?
Fonte: Larissa Cristovão / Ninja Esporte Clube

